O modelo de royalties que tenta reconciliar artistas com a inteligência artificial
Enquanto a indústria de inteligência artificial generativa acumula bilhões em investimentos e processos judiciais por violação de direitos autorais, uma pequena startup chamada Pippa tenta pavimentar um caminho alternativo: pagar artistas toda vez que o estilo de seu trabalho é usado para gerar imagens ou vídeos. A pergunta que fica é se isso é suficiente para convencer uma comunidade que, nos últimos anos, tem soado o alarme sobre o uso não autorizado de suas obras.
Como funciona o modelo da Pippa
Fundada por Hogan Shrum e Sean Wright, a Pippa opera como um serviço de geração de vídeo por texto — assim como Runway, Pika e outras plataformas do gênero. A diferença está no modelo de negócio: cada vez que um assinante gera uma imagem ou clipe cujo estilo é derivado do trabalho de um artista humano parceiro, esse artista recebe uma compensação direta da plataforma.
Os valores individuais são modestos: US$ 0,005 por imagem e US$ 0,003 por segundo de vídeo. Os artistas também têm acesso a uma fatia de um pool de royalties de 5% financiado pela receita total de assinaturas da plataforma, que variam de US$ 14,99 a US$ 99,99 por mês. A empresa compara abertamente sua estrutura de pagamentos ao Spotify — uma escolha curiosa, considerando que muitos músicos criticam exatamente esse modelo por pagar pouco.
O estado atual e os desafios
Lançada em maio de 2026, a Pippa tem atualmente cerca de 800 assinantes pagantes e apenas quatro artistas com contratos de licenciamento e treinamento de modelos assinados, com mais quatro em negociação. Artistas interessados passam por um processo de verificação em múltiplas etapas para comprovar que as ilustrações submetidas são realmente suas. Uma vez aprovados, seus estilos ficam disponíveis na plataforma.
Um detalhe revelador: a Pippa oferece aos artistas a opção de publicar sob pseudônimos, caso temam ser vistos como “furando a greve” por suas comunidades. “Tivemos tantas conversas com artistas que dizem: ‘Adoro isso, mas não quero ser excluído pela minha comunidade'”, explicou Wright ao The Verge.
O elefante na sala: os modelos de base
Apesar das boas intenções, a Pippa admite que sua tecnologia ainda é construída sobre modelos abertos que têm “treinamento inicial no conjunto mais amplo de conteúdo disponível na internet”. Em termos mais diretos: parte da tecnologia ainda depende de arte raspada da web sem consentimento explícito dos criadores.
Esse problema não é exclusivo da Pippa — ele afeta toda startup de IA “ética” cujos modelos personalizados são treinados em informações que não foram criadas internamente. É por isso que algumas empresas, como a InterPositive (de Ben Affleck), fazem questão de desenvolver datasets proprietários totalmente originais. Mas isso exige um capital inicial que a maioria das startups não tem.
O que vem pela frente
A Pippa planeja incorporar em breve o modelo Seedance 2.5 da ByteDance, capaz de gerar até 30 segundos de vídeo com ajustes finos sem reiniciar do zero. Mas para realmente se diferenciar de concorrentes que também oferecerão o Seedance, a empresa precisa ampliar significativamente seu catálogo de artistas internos.
Shrum e Wright acreditam que os primeiros artistas parceiros convencerão outros a entrar. Mas para que isso aconteça em escala, a opinião pública sobre IA generativa — hoje majoritariamente negativa entre criadores — precisaria mudar. E isso, por enquanto, é uma aposta de alto risco.
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