Em um movimento surpreendente, o CEO da Microsoft, Satya Nadella, juntou-se ao coro de vozes que alertam sobre os riscos de depender de modelos de IA proprietários. Em um artigo publicado nesta segunda-feira, Nadella fez um alerta direto: empresas que usam IA estão pagando duas vezes — uma com dinheiro e outra com algo muito mais valioso: seus dados proprietários.
O alerta de Nadella: as empresas estão entregando seu conhecimento mais valioso
“Você essencialmente paga pela inteligência duas vezes: uma com dinheiro e outra com algo ainda mais valioso — o conhecimento proprietário que você precisa revelar para tornar essa inteligência útil. Quanto melhor você quer que o modelo funcione, mais desse conhecimento você precisa alimentar nele”, escreveu Nadella.
O CEO da Microsoft argumenta que as empresas estão literalmente ensinando os modelos sobre as nuances de seus negócios. “Modelos aprendem com o ‘escapamento’: os prompts que as pessoas escrevem, as ferramentas que os agentes usam e, especialmente, as correções que as pessoas fazem quando o modelo erra. Cada correção é destilada em conhecimento institucional.”
Segundo Nadella, este é “o tipo de conhecimento que um concorrente jamais poderia comprar” — e ainda assim as empresas estão entregando de graça.
O paradoxo dos modelos proprietários
Nadella aponta uma contradição no mercado atual: se as empresas de IA podem livremente treinar seus modelos raspando a internet, por que as empresas não podem estudar — ou “destilar” — esses modelos em troca? A “destilação” é a prática de usar as saídas de um modelo para aprender como ele funciona e treinar um novo modelo, geralmente mais barato, com base nesses insights.
Em fevereiro, a Anthropic acusou modelos chineses de código aberto de enviar milhões de prompts ao Claude para melhorar seus próprios modelos e pediu que o governo dos EUA reforçasse os controles de exportação. Para Nadella, é irônico que as criadoras de modelos imponham termos restritivos de destilação enquanto fazem uso livre de dados públicos para treinamento.
“Embora a grande inovação que vem do direito de uso justo para treinar modelos com dados públicos seja necessária, acho irônico que o status quo seja impor termos restritivos à destilação”, afirmou.
A solução: retenção de propriedade e modelos abertos
A solução proposta por Nadella é previsível para o CEO de uma gigante de nuvem: empresas devem “reter a propriedade” de seus dados — incluindo prompts, feedback e correções. Ele recomenda que as companhias construam seus próprios “ambientes de aprendizado proprietários” na nuvem e implementem “camadas de orquestração” — ferramentas que permitem alternar facilmente entre diferentes provedores de IA, evitando o aprisionamento a um único fornecedor.
Embora Nadella nunca use as palavras “código aberto” explicitamente, o subtexto é evidente. E os dados do mercado confirmam essa tendência: segundo o TechCrunch, os modelos abertos representaram 29% de todo o tráfego roteado pelo gateway da Vercel no mês passado.
Empresas já estão migrando para modelos on-premise
Idit Levine, fundadora e CEO da Solo.io — empresa que fornece software de rede e segurança para gerenciar sistemas de IA e atende clientes como T-Mobile, ADP e SAP — confirma essa migração. “Posso rodar um modelo open source on-premise? Ele fará quase 90% do que o modelo grande faz e custará muito menos”, explica Levine ao citar o raciocínio de seus clientes. “Eles entendem isso e podem controlar.”
A tecnologia da Solo.io foi selecionada no ano passado para impulsionar o projeto Agentgateway da Linux Foundation. Levine vê a adoção de modelos abertos instalados nas próprias instalações das empresas como a próxima grande onda no uso empresarial de IA.
Com o CEO da Microsoft — empresa que investiu pesadamente tanto na OpenAI quanto na Anthropic — agora alertando abertamente as empresas sobre os riscos de depender de modelos proprietários, a tendência de migração para modelos abertos deve se intensificar. Como resumiu Nadella: “Ao consumir inteligência, você está criando inteligência. E o que você cria deve pertencer a você.”
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