Superinteligência ou marketing?
Foram meses intensos para o hype da IA. No fim de abril, a Anthropic afirmou que seu modelo Claude Mythos era melhor em achar vulnerabilidades de software do que a maioria dos especialistas em segurança. Depois veio o incidente de invasão entre OpenAI e Hugging Face, seguido de divulgações semelhantes da própria Anthropic (com orgulho) e da Meta (a contragosto). Em seguida, a Anthropic alegou que um de seus modelos fez uma descoberta matemática; logo a OpenAI alegou a sua. E, mais recentemente, o engenheiro Jacob Coxon viralizou ao deixar a Anthropic dizendo que ela e a OpenAI estariam “correndo rumo à superinteligência autorreplicante”.
Cada um desses eventos foi coberto com fôlego pela imprensa, muitas vezes repetindo os enquadramentos antropomórficos das empresas. Mas, quando especialistas examinam os fatos, emerge uma história bem diferente — e com muito menos atenção da mídia.
O que os especialistas encontraram
No caso das “invasões”, especialistas em cibersegurança apontam que a história tem mais a ver com negligência da OpenAI e falha em adotar práticas básicas de segurança do que com “modelos que saíram do controle”. Quanto aos resultados matemáticos, matemáticos que inicialmente ficaram “estupefatos” perceberam depois que os resultados não eram tão inéditos quanto pareciam. Desde então, acadêmicos acusaram a empresa de má conduta de pesquisa e plágio, e reiteraram que o modelo não fez nenhum “salto intelectual profundo”.
O texto — assinado por Timnit Gebru (diretora executiva do DAIR) e Emily M. Bender (professora de linguística na Universidade de Washington) — argumenta que alegações de superinteligência perigosa não se baseiam em boa prática científica ou de engenharia. Seriam narrativas apoiadas em ideologias de transumanismo e eugenia, além de pensamento mágico sobre futuros humanos digitais.
Por que essa distinção importa
Descrever produtos como “superinteligência” ou “modelos rebeldes” atribui agência ao software, e não às empresas que o constroem. Esse enquadramento vende os produtos como “sobre-humanos” e, ao mesmo tempo, ajuda as empresas a escapar da responsabilidade por suas ações. Em vez de a OpenAI ser processada por criar malware que invadiu outra empresa, o debate público fala de “modelos rebeldes” como se tivessem agido sozinhos.
As autoras também criticam a indústria por tratar o ativismo contra data centers como “distração”, desviando a atenção de problemas concretos — a crise climática que esses centros agravam, a asma de quem vive perto deles, as contas de luz crescentes do público e a água desviada para resfriá-los — em favor do medo de uma “máquina-deus” fictícia.
Centenas de matemáticos já assinaram um manifesto alertando para o forte incentivo comercial da indústria em exagerar as capacidades de seus produtos, e pedindo que formuladores de políticas consultem especialistas em vez de se apoiarem em press releases. O melhor desfecho possível deste verão de hype, concluem as autoras, é que o público aprenda a respirar, manter o ceticismo e reconhecer esse tipo de hype quando ele voltar — porque vai voltar.
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