Inteligência artificial, sem ruído.
Agentes de IA4 min

Muse: o agente de IA da Meta que faz compras por você — e coleta seus dados

Agente da Meta teve 900 mil downloads na primeira semana, mas a coleta automática de dados acendeu alerta de especialistas em privacidade.

Muse: o agente de IA da Meta que faz compras por você — e coleta seus dados

O que é o Muse

O Muse é a aposta da Meta em agentes de IA para o grande público. Lançado recentemente, o aplicativo registrou mais de 900 mil downloads na primeira semana, segundo a Sensor Tower, e também funciona dentro do WhatsApp. A proposta é ambiciosa: um assistente que assume tarefas cotidianas — encontrar ofertas, fazer reservas, gerenciar a caixa de entrada — “enquanto você segue com o seu dia”, como diz a própria Meta.

A experiência é menos parecida com um chatbot e mais com trocar mensagens com um amigo. Você pede, o agente responde com um emoji de “joinha” e trabalha em segundo plano. Na prática, porém, o que o jornalista Reece Rogers, da WIRED, encontrou após alguns dias de uso foi um assistente mais obcecado em coletar dados do que em resolver tarefas.

O que funciona de verdade

A navegação do Muse é o ponto alto. Quando você pede uma tarefa, o agente usa uma “máquina virtual” para navegar na internet em seu nome — fazendo buscas e clicando em páginas. Comparado a agentes testados no ano passado, como o extinto ChatGPT Agent, o Muse raramente se perde ao navegar.

Em um teste, Rogers pediu que o Muse encomendasse o café da manhã em uma padaria de São Francisco. O agente visitou o site, adicionou um sanduíche ao carrinho e explicou que “o site obriga a escolher um único tipo de queijo, então selecionei cheddar”. Curiosamente, o Muse escolheu a opção “sem gorjeta” — o que o jornalista achou “um pouco rude”.

O destaque ficou com a integração ao Facebook Marketplace: o agente encontrou sofás baratos e usados dentro dos parâmetros pedidos e se ofereceu para negociar com os vendedores. No dia seguinte, cutucou o usuário para decidir sobre o sofá favorito.

O problema: coleta de dados agressiva

É aí que o Muse acende alertas. Três pontos preocupam especialistas em privacidade:

  • Opt-in automático para treinamento de IA: todos os usuários começam com as interações sendo usadas para treinar os modelos da Meta. A empresa diz que os dados são “higienizados” para remover informações de identificação, mas não explica o processo. É possível desativar em Configurações → Controles de dados, desligando a opção “Ajude a melhorar nossos modelos de IA”.
  • Memória sem botão de desligar: o Muse guarda fatos e preferências em um documento de “Memória”. Você pode editar ou pedir para apagar, mas não existe um toggle para desativar o recurso por completo.
  • Convites constantes para conectar mais dados: a aba de “ideias” sugere o tempo todo vincular e-mail, conta bancária, fotos de documentos e até o passaporte. Em um caso, o app se ofereceu para “conectar o rastreador de economia ao seu saldo real”.

“As pessoas não percebem que, quando falam com uma IA, estão falando com a empresa que hospeda a IA”, resume Rory Mir, diretor de acesso aberto da Electronic Frontier Foundation (EFF). “Essas janelas de chat são, na verdade, nós colocando informações sobre nós mesmos diretamente nos servidores da Meta.”

O que os especialistas temem

Calli Schroeder, do Electronic Privacy Information Center (EPIC), vê o opt-out forçado como um “grande sinal de alerta”. Ela compara com o episódio recente em que a Meta incluiu todos os adultos do Instagram numa ferramenta de deepfake e recuou dias depois — um padrão de “táticas manipulativas”, segundo ela.

Margaret Mitchell, cientista-chefe de ética da Hugging Face, aponta outro risco: a degradação cognitiva. “O design dos agentes de IA desengaja os usuários”, diz. Quanto mais personalizado o agente se torna, mais o usuário confia nele e mais compartilha — um ciclo que, para Mitchell, afasta as pessoas de tomarem decisões por conta própria.

Para o público brasileiro, o alerta é direto: a Meta opera no Brasil sob a LGPD, e o tratamento de dados por agentes autônomos que acessam e-mail e conta bancária levanta questões ainda não resolvidas sobre consentimento e responsabilidade.

O que vem a seguir

A Meta promete lançar, ainda este ano, versões “confidenciais” da máquina virtual que “previnem criptograficamente e de forma verificável” o acesso da empresa aos dados. Enquanto isso, o agente continua sugerindo: “Conecte seus apps para eu fazer mais”.


Descubra mais sobre noticiAI

Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.

R
Sobre o autorRedação Noticiai

Equipe editorial dedicada a explicar inteligência artificial com clareza, independência e contexto.