GSK investe US$ 110 milhões em startup de IA: por que dados biológicos de qualidade são o novo ouro da descoberta de medicamentos
A farmacêutica britânica GSK fechou uma colaboração de pesquisa com a biotech Relation Therapeutics avaliada em até US$ 110 milhões, ampliando o uso de IA na descoberta de medicamentos. O acordo coloca um holofote sobre uma questão central: dados biológicos de qualidade importam tanto quanto os modelos de IA que os processam.
Pelo acordo, a Relation vai gerar datasets em larga escala medindo como células humanas respondem a alterações genéticas e intervenções com medicamentos. Esses dados alimentarão modelos de IA — incluindo a plataforma MORGAN da Relation — projetados para identificar potenciais alvos terapêuticos.
O “Lab-in-the-Loop”: experimento + computação
A Relation descreve sua abordagem proprietária, chamada Lab-in-the-Loop, como uma combinação de experimentação em laboratório com análise computacional. O trabalho inclui perfil de tecidos, transcriptômica espacial e de célula única, sequenciamento e validação de alvos. O machine learning é usado para identificação, priorização e design experimental.
A empresa já aplica essa metodologia ao projeto Osteomics, um atlas funcional de célula única para tecido ósseo que combina dados genômicos, proteômicos e de imagem para investigar osteoporose.
Mais dados nem sempre é melhor
Um achado importante publicado na Nature Methods em junho deste ano desafia a suposição de que “quanto mais dados, melhor”. Pesquisadores treinaram 400 modelos com um corpus de 22,2 milhões de células e avaliaram o desempenho em 6.400 experimentos.
O resultado: os modelos de fundação de célula única atingiram platôs de desempenho após treinar em apenas uma fração do corpus disponível. Diferente dos grandes modelos de linguagem, esses sistemas não mostraram leis de escala claras — adicionar mais dados biológicos não trouxe ganhos consistentes.
Outro estudo publicado na Genome Biology em 2025 avaliou dois modelos populares, Geneformer e scGPT: eles não superaram consistentemente abordagens mais simples em tarefas de avaliação zero-shot.
O valor dos datasets proprietários
Uma análise da Nature Biotechnology de 2025 identificou os provedores de datasets especializados como uma tendência emergente nos acordos de IA em biofarma. A GSK tem outro acordo com a Ochre Bio (US$ 37,5 milhões) para licenciamento de dados de fígado humano. AstraZeneca e Pathos AI fecharam um acordo de US$ 200 milhões com a Tempus para desenvolver modelos de fundação oncológicos.
O acordo GSK-Relation inclui tanto a geração de dados quanto o desenvolvimento de modelos — um reconhecimento de que, na descoberta de medicamentos por IA, a qualidade dos dados de treinamento é tão estratégica quanto os algoritmos que os processam.
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