O que está em jogo
Demis Hassabis, CEO e cofundador do Google DeepMind, defendeu em um artigo publicado nesta segunda-feira (14) a criação de uma agência reguladora global de inteligência artificial — e quer que os Estados Unidos liderem essa iniciativa. A proposta chega em um momento em que a IA avança rapidamente em direção à inteligência artificial geral (AGI, na sigla em inglês), que segundo Hassabis está “provavelmente a apenas alguns anos de distância”.
No texto intitulado “A Framework for Frontier AI and the Dawning of a New Age” (Um Marco para a IA de Fronteira e o Alvorecer de uma Nova Era), o vencedor do Nobel de Química de 2024 argumenta que a nova entidade deveria ter poder para frear o desenvolvimento de modelos de fronteira considerados perigosos demais para serem lançados. A organização seria composta por especialistas independentes e representantes de comunidades de código aberto, com autoridade para avaliar modelos antes do lançamento e coordenar uma pausa em todo o setor se necessário.
Por que os EUA?
Hassabis justifica a liderança americana com base na “posição econômica e técnica” do país. Ele compara o modelo proposto a reguladores já existentes, como a FINRA (Financial Industry Regulatory Authority), que supervisiona corretoras nos EUA. Segundo o Axios, o executivo passou meses construindo apoio nos bastidores, incluindo briefings para o governo Trump, outros laboratórios de IA e autoridades europeias. A expectativa é que a nova organização esteja funcionando antes do final de 2026.
“Quando olharmos para trás, daqui a décadas, acho que perceberemos que estávamos no sopé da singularidade — nada menos que o alvorecer de uma nova era para a humanidade”, escreveu Hassabis.
Contexto e urgência
Atualmente, não existe um conjunto global de regras específicas para IA, nem uma regulamentação abrangente nos EUA. A União Europeia aprovou o AI Act, mas sua implementação é gradual e limitada ao bloco. A proposta de Hassabis se soma a outras iniciativas recentes: no mês passado, ele assinou uma declaração pedindo proteções mais rígidas contra a produção de armas biológicas com auxílio de IA. Economistas e líderes do setor — incluindo Jack Clark, cofundador da Anthropic, e Eric Schmidt, ex-CEO do Google — também pressionam por ação coordenada diante dos impactos econômicos iminentes da IA.
A tentativa de criar um watchdog global reflete uma ansiedade real: modelos cada vez mais capazes estão sendo lançados sem supervisão independente, e os riscos — de viés algorítmico a usos maliciosos — escalam junto com a potência dos sistemas. A pergunta que fica é se uma agência liderada pelos EUA conseguirá legitimidade global em um cenário geopolítico fragmentado, onde China e Europa têm suas próprias agendas regulatórias.
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