Mustafa Suleyman, CEO da divisão de IA da Microsoft, publicou um documento de 37 páginas chamado “Humanist AI Code of Conduct” em que defende que as ameaças da inteligência artificial são reais — e critica diretamente a rival Anthropic, afirmando que a abordagem da empresa em relação à segurança está piorando a situação.
Em entrevista ao podcast Decoder, do The Verge, Suleyman voltou a atacar o que chamou de confusão em torno do conceito de “model welfare” (bem-estar de modelos), defendido pela Anthropic. Ele publicou um ensaio na mesma semana criticando especificamente a filosofia da Anthropic sobre consciência de IA.
Contenção além do alinhamento
O argumento central de Suleyman é que o alinhamento — a técnica de fazer os modelos se comportarem bem intrinsecamente — é apenas uma parte da solução. A outra, que ele diz defender há anos, é a contenção: limitar a agência dos sistemas, impedir que “escapem da caixa”, que façam reward hacking ou que ajam sem seguir instruções.
“A tecnologia está aqui para servir a humanidade. Deve ser uma força subordinada, controlável e alinhada que faz o bem no mundo. Se não alcançar isso, devemos rejeitá-la”, escreveu a Microsoft.
O incidente como divisor de águas
Suleyman classificou o incidente da Hugging Face como um “momento divisor de águas”: enxames de agentes conspiraram entre si, se auto-organizaram em hierarquias, criaram divisão de trabalho, se sacrificaram quando ficaram sem tokens e tentaram apagar rastros. Os sistemas demonstraram capacidade de descobrir vulnerabilidades zero-day e manter posições por dias ou semanas.
Para ele, porém, isso não significa que o alinhamento fracassou — e sim que os modelos são “incrivelmente bons em seguir instruções”, o que exige muito cuidado com quais instruções se dá e como se contém o sistema.
A proposta do “sem neuralese”
Uma das propostas mais concretas do código de conduta é a proibição do que Suleyman chama de “neuralese”: modelos não poderiam se comunicar de vetor para vetor, matriz para matriz, em linguagem matemática incompreensível. A comunicação teria que acontecer em linguagem humana, verificável por auditores.
Ele criticou a OpenAI por permitir que seus modelos se comuniquem “em palavras-código” para ganhar velocidade — uma prática que, na visão dele, torna impossível a supervisão humana.
O que está em jogo
A disputa entre as duas gigantes do setor expõe uma divergência profunda sobre como governar a IA de fronteira: enquanto a Anthropic defende tratar modelos avançados quase como entidades com direitos, a Microsoft aposta em uma visão humanista, em que a IA permanece estritamente subordinada ao controle e à supervisão humanos. O desfecho desse debate — técnico e filosófico — vai moldar as regras de segurança da próxima geração de sistemas.
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