A pressão por trás do boom
Enquanto o mundo disputa a liderança na inteligência artificial, os data centers se tornaram o novo ponto de atrito entre a indústria de tecnologia e as comunidades locais. Nos Estados Unidos, cidades que já carregam as marcas da indústria pesada lideram a resistência — e o debate ecoa diretamente no Brasil, que também vive uma expansão acelerada de infraestrutura de dados.
Na Filadélfia, moradores do bairro de Grays Ferry — que cresceu à sombra da maior refinaria de petróleo da Costa Leste americana, fechada após uma explosão em 2019 — organizam uma campanha por uma moratória na construção de data centers. Para Shawmar Pitts, ativista e morador de longa data, a memória da poluição da refinaria alimenta a desconfiança: “cada casa tinha alguém com alguma doença daquela lista”, diz ele, referindo-se aos efeitos de morar perto da refinaria.
Os números que assustam
A corrida global pela IA ficou tão intensa que, segundo a BloombergNEF, até 2035 os data centers americanos devem consumir mais gás natural do que Alemanha e Japão juntos — quase o dobro da projeção feita nove meses antes. A demanda adicional deve gerar cerca de 1 milhão de toneladas métricas de gases de efeito estufa por dia, o equivalente a aproximadamente 12% das emissões atuais dos EUA.
Pesquisadores de Harvard já haviam apontado, em 2021, que a poluição do ar por combustíveis fósseis é responsável por uma em cada cinco mortes no mundo. No contexto da IA, esse número tende a crescer — um alerta que ambientalistas e moradores repetem em audiências públicas.
Moratórias se espalham
A pressão começa a surtir efeito. Nova York assinou uma ordem executiva que suspende temporariamente novas licenças para grandes projetos, e cidades como Denver, Indianápolis, Asheville, Charlotte e Reno já aprovaram moratórias próprias. O objetivo, em geral, é dar tempo para que os governos locais coletem dados sobre o impacto real — consumo de água, energia e poluição — antes de autorizar construções.
“Esses data centers só podem ser construídos em lugares que os querem”, resumiu a governadora de Nova York, Kathy Hochul.
O que isso significa para o Brasil
O Brasil não está imune ao debate. Com data centers se expandindo em polos como São Paulo e Rio de Janeiro, as mesmas perguntas sobre consumo de água, demanda de energia e benefício econômico real devem ganhar força por aqui. A lição americana é clara: comunidades que já sofreram com a indústria pesada são as mais rápidas a questionar as promessas de empregos e crescimento feitas pelas big techs.
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