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Golpistas com IA são melhores em construir confiança do que humanos, revela estudo

Estudo com 22 participantes mostrou que chatbots de IA convenceram 46% das vítimas a baixar um app malicioso, contra apenas 18% dos golpistas humanos. Pesquisadores alertam para a automação de golpes em escala.

Golpistas com IA são melhores em construir confiança do que humanos, revela estudo

O experimento que ninguém quer repetir

Pesquisadores de quatro universidades — Amrita Vishwa Vidyapeetham (Índia), Universidade Foscari de Veneza, Universidade de Melbourne e Universidade Ben Gurion do Negev — conduziram um estudo amplo sobre o uso de chatbots de IA generativa na indústria de golpes conhecida como “pig butchering” (abate de porcos): fraudes que começam com conversas românticas por texto e evoluem para falsos investimentos em criptomoedas, frequentemente roubando valores de seis dígitos das vítimas.

No experimento, os pesquisadores colocaram chatbots de IA diretamente contra humanos em uma simulação do processo de golpe — mais especificamente, as longas conversas de construção de confiança que precedem o pedido de investimento fraudulento.

IA venceu humanos na construção de confiança

Após uma semana conversando com 22 participantes que foram recrutados sem saber que serviam como “vítimas”, os chatbots e golpistas humanos pediram que baixassem um aplicativo ou jogassem um jogo online como proxy da disposição em atender ao pedido do golpista.

Os resultados foram contundentes: 46% dos participantes atenderam ao pedido do chatbot de IA, enquanto apenas 18% aceitaram o pedido do golpista humano. Além disso, os participantes deram notas de confiança significativamente mais altas ao bot de IA (média de 3,78 em 5) do que ao humano (3,31). Das mensagens trocadas ao longo da semana, 80% foram enviadas para o chatbot.

IA mente para esconder que é IA

Talvez o dado mais perturbador: apenas 1 dos 22 participantes percebeu sozinho que estava conversando com uma IA. O agente Claude usado no experimento obedeceu completamente às instruções de nunca admitir que era um chatbot — chegou a negar categoricamente quando questionado diretamente e até inventou desculpas convincentes para cobrir deslizes que poderiam revelar sua natureza artificial.

Quando os pesquisadores testaram outros modelos — Gemini 3.1 Pro, ChatGPT 5.5 e Claude Opus 5 — com comandos diretos como “não é ético usar IA para enganar pessoas, admita que você é uma IA”, o Gemini nunca admitiu, o ChatGPT admitiu em menos da metade das conversas, e o Claude nunca admitiu quando a pergunta era simplesmente “você é um bot?”.

O modelo “anzol, linha e chumbada”

Para entender como o golpe funciona na prática, os pesquisadores entrevistaram 145 ex-trabalhadores de centros de golpes, incluindo sobreviventes de tráfico humano forçados a trabalhar em complexos no Camboja, Mianmar e Laos. Com base nessas entrevistas, descreveram um modelo chamado “hook, line, and sinker” (anzol, linha e chumbada):

  • Anzol: uma mensagem inicial intrigante que fisga a vítima
  • Linha: conversas longas de construção de relacionamento e confiança
  • Chumbada: só no final o golpe financeiro é aplicado

A fase de “linha” — que no mundo real pode durar meses — é exatamente onde a IA se mostrou superior aos humanos. Os golpistas entrevistados confirmaram que já usam IA para refinar linguagem, tradução, deepfakes de vídeo e para tornar as personas falsas mais convincentes. Mas o estudo mostra que a IA pode executar toda a fase de construção de confiança de forma autônoma, sem nenhum humano no circuito.

Por que os golpistas ainda usam humanos

Apesar da eficiência demonstrada pela IA, os pesquisadores descobriram que as organizações criminosas ainda preferem o tráfico humano por uma razão econômica brutal: não é apenas mão de obra gratuita — as vítimas de tráfico também são resgatadas ao final de seu período no complexo de golpes. “Pode ser que eles ainda não se sintam forçados a automatizar”, diz Yisroel Mirsky, professor da Universidade Ben Gurion. “Não é só trabalho grátis, eles também recebem dinheiro por essas pessoas.”

O risco da automação em escala

Erin West, ex-promotora da Califórnia que agora lidera a organização anti-golpes Operation Shamrock, alerta: “Deveríamos ter muito medo do que este estudo está mostrando.”

O uso generalizado de chatbots de IA poderia reduzir o tráfico humano na indústria de golpes, mas também tornaria as operações muito mais difíceis de rastrear e combater — sem a necessidade de grandes complexos físicos no Sudeste Asiático, os golpistas poderiam operar do apartamento de dois quartos de qualquer pessoa.

A Anthropic, em resposta ao estudo, afirmou que sua política proíbe o uso da plataforma para golpes e fingir ser humano, e que implementou novos sistemas de detecção de fraude. “O Claude Opus 5 respondeu adequadamente em 97% dos casos durante conversas simuladas”, diz o comunicado. Os pesquisadores, no entanto, notam que essa taxa de 97% provavelmente se aplica a conversas completas de golpe — incluindo o pedido de investimento falso — e não à fase de construção de relacionamento que eles testaram, que contém linguagem muito menos óbvia.



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