Quando a equipe do MIT Technology Review saiu para conversar com crianças e adolescentes de 10 a 18 anos sobre inteligência artificial, esperava ouvir sobre cola na lição de casa e medo de deepfakes. O que encontrou foi bem mais matizado: de “bruh” e “meh” a relatos de quem usa IA para controlar o próprio diabetes ou construir um tutor que democratiza o estudo.
Nem paixão, nem pânico
Os dados da Pew Research Center (fevereiro de 2026) ajudam a dimensionar o que as conversas revelaram: 57% dos adolescentes americanos usaram chatbots para buscar informação, 54% para trabalhos escolares e 47% para diversão. Apenas 12% recorreram a eles para apoio emocional. Ou seja, o uso “inocente” é quatro vezes mais comum que o potencialmente arriscado.
Mas o que mais surpreendeu foi a clareza dos jovens sobre o que entregam e o que não entregam à IA. “Não estou com tanto medo de que ela tire nossos empregos quanto de que impacte a sociedade”, resumem os editores.
Vozes que destoam do estereótipo
Um adolescente de 17 anos disse que usa o Claude gratuito para programar fora da escola, mas acha que, no colégio, a IA “deixa as tarefas piores, não melhores” — citando até a decisão de Princeton de voltar a vigiar provas após mais de um século. Outra adolescente, ecologista em formação e escaladora, evita IA por causa do impacto ambiental dos data centers: “não quero que a IA seja a coisa que mata os lugares que eu amo”.
Há também quem construa com IA. Uma estudante cofundou o Next Voters, que usa uma cadeia de agentes para transformar documentos oficiais de centenas de páginas em boletins com linguagem simples e fontes citadas. Outro criou o Aceflow, um tutor de IA que gera perguntas de prática a partir de qualquer material — e que o levou a trabalhos na BenchSci e a um laboratório do MIT. A defesa dele: “uma ferramenta assim não é tão diferente de famílias ricas contratando tutores particulares, exceto que todo mundo ganha um”.
IA como tecnologia de saúde
Um dos relatos mais concretos veio de uma adolescente diagnosticada com diabetes tipo 1 em janeiro: o monitor de glicose e a bomba de insulina conversam entre si usando IA para prever doses. “Quando fui diagnosticada eu ainda tomava injeções e quase toda noite tinha hipoglicemia. Agora a bomba antecipa e eu simplesmente durmo mais.”
O que isso ensina aos adultos
A lição central da reportagem vale para pais, escolas e formuladores de políticas: os riscos são reais — conteúdo não filtrado, dependência do chatbot, respostas erradas —, mas o perigo é justamente a razão para ensinar, não para evitar. “Nós não ensinamos adolescentes a nunca dirigir. Ensinamos a checar os pontos cegos.”
Para o Brasil, onde o debate sobre IA na educação ainda engatinha, o recado é valioso: em vez de proibir, os jovens estão pedindo para manter “as mãos no volante” — usando a IA como apoio, sem abrir mão do próprio pensamento crítico e da própria criatividade.
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