Por que a historiadora Jill Lepore diz que o Vale do Silício lê mal a ficção científica — e como isso ameaça a democracia
A historiadora de Harvard Jill Lepore — uma das vozes mais influentes da academia americana — acaba de publicar um diagnóstico ácido sobre a indústria de tecnologia: os líderes do Vale do Silício são maus leitores de ficção científica, e essa deficiência está corroendo as instituições democráticas.
Em uma entrevista ao podcast Equity do TechCrunch, Lepore — que é professora de História Americana em Harvard e colaboradora da The New Yorker — argumenta que figuras como Elon Musk e Sam Altman se apropriaram seletivamente de obras como as de Isaac Asimov e Robert Heinlein, extraindo delas uma visão distorcida que naturaliza a concentração de poder nas mãos de poucos.
O problema, segundo Lepore, não é a tecnologia em si — é o arcabouço narrativo que seus líderes usam para justificar decisões. Ao lerem ficção científica como manual de instruções em vez de como advertência, eles constroem uma ideologia que trata a política democrática como obsoleta e o “governo por máquinas” como inevitável.
“Eles leem Foundation do Asimov e pensam ‘é isso que devemos construir’, em vez de ‘é disso que devemos ter medo'”, explica Lepore. A Fundação de Asimov é uma sociedade governada por matemáticos que usam a “psico-história” para prever e controlar o futuro — uma tecnocracia que elimina o debate público.
O que está em jogo
Lepore conecta esse viés de leitura a três fenômenos atuais:
- Substituição da deliberação democrática por decisões algorítmicas: quando plataformas decidem o que é discurso aceitável sem transparência ou recurso;
- Concentração de poder sem precedentes: um pequeno grupo de bilionários controla a infraestrutura de comunicação, computação e agora inteligência artificial;
- Narrativa do “Estado ineficiente”: a ideia de que governos são lentos e ultrapassados, e que soluções privadas são sempre superiores.
A historiadora não propõe abandonar a inovação — ela defende que precisamos de melhores leitores no comando. Leitores que entendam que a ficção científica é um gênero de advertência, não de instrução.
Por que isso importa agora
O argumento de Lepore chega em um momento em que a regulação de IA está sendo debatida em todo o mundo — inclusive no Brasil, onde o PL 2338/2023 tramita no Congresso. A pergunta que ela coloca é incômoda: estamos delegando decisões civilizacionais a pessoas que leem mal as metáforas do poder?
A entrevista completa está disponível no podcast Equity do TechCrunch. Para quem acompanha o debate sobre governança de IA, é uma escuta obrigatória.
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