Vint Cerf, um dos arquitetos do TCP/IP e pai fundador da internet como a conhecemos, deixou o Google após 20 anos na semana passada. Mas ele não terminou de pensar sobre o futuro digital. A partir desta terça-feira (15), Cerf passa a assessorar a Innovation Labs, organização que trabalha na criação de uma arquitetura aberta para que agentes de IA se identifiquem na internet.
A Innovation Labs é subsidiária da Identity Digital, empresa de registro de domínios DNS. A visão é clara: conforme mais interações online passam a acontecer entre agentes do que entre pessoas, a infraestrutura de nomes de domínio surge como caminho prático para responsabilizar agentes de IA.
DNSid: o “RG” dos agentes de IA
O protocolo proposto pela Innovation Labs se chama DNSid — um registro de identificação de agentes que vincula cada agente a um domínio de internet existente e usa provas criptográficas para registrar seu histórico ao longo do tempo.
Allie Kline, CEO interina da Innovation Labs, afirma que a empresa já testa o padrão com “vários hyperscalers e empresas de identidade”, embora não revele nomes.
Um diferencial importante: a Innovation Labs não planeja atuar em outros negócios de IA nem deter os dados de registro. “Acho que há muita rejeição orgânica a um hyperscaler lançar [um padrão] e ficar com esses dados proprietários”, disse Kline ao TechCrunch.
O que Cerf pensa sobre o futuro dos agentes
Cerf reconhece que as perguntas sobre autoridade e confiança são espinhosas. Diferente de domínios estáticos, agentes de IA são muito mais ativos, e ainda não está claro qual compromisso uma organização assume ao registrá-los.
“Esta é uma questão de que autoridades eles têm, de onde derivaram essas autoridades, quem é responsável pelo comportamento de um agente nesse contexto, onde e como sua identidade é estabelecida e por que você confiaria nele”, explicou.
Sobre se a economia agentiva é o destino inevitável da internet, Cerf foi pragmático: “Não acho que seja inevitável. Mas o que acho inevitável é que as pessoas vão tentar. Somos criaturas fundamentalmente preguiçosas. Se encontrarmos uma forma de um agente fazer algo por nós, é muito provável que escolhamos isso porque é simplesmente mais fácil.”
Cerf também alertou sobre o risco de fragmentação: se cada empresa adotar padrões proprietários, os agentes não vão se comunicar entre si. Ele aposta que a pressão dos usuários forçará a interoperabilidade — assim como aconteceu com o TCP/IP décadas atrás.
Por que isso importa
O envolvimento de Cerf dá peso institucional a um debate que até agora era dominado por startups e big techs. A padronização da identidade de agentes é pré-requisito para que empresas e governos permitam que IAs ajam de forma autônoma na internet — desde realizar compras até assinar contratos. Sem ela, a economia dos agentes permanece em jardins murados.
Para o Brasil, onde a regulamentação de IA avança no Congresso, o padrão DNSid pode servir como referência técnica para exigências de identificação e rastreabilidade de agentes em setores regulados como financeiro e saúde.
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