O efeito dominó: quando data centers desligam ao mesmo tempo
Um cabo de energia caiu nos arredores de Washington, DC, nesta semana. Normalmente, a rede elétrica se recuperaria em segundos. Mas desta vez levou mais de 10 minutos. O motivo: mais de 3 gigawatts de data centers interromperam o consumo de energia quase simultaneamente, criando um desequilíbrio que reverberou por mais de 1.000 quilômetros — da Virgínia do Norte até Chicago.
O evento, registrado pela startup Ting Labs (que opera sensores IoT em tomadas residenciais), não causou um apagão, mas fez as luzes piscarem em toda a região. E os especialistas alertam: isso é só o começo.
Por que isso importa agora
A Virgínia do Norte concentra a maior densidade de data centers do mundo e fica no território da PJM Interconnection — a maior operadora de rede elétrica dos EUA, que atende 67 milhões de pessoas em 13 estados, de Nova Jersey a Illinois. Em 2024, um evento similar tirou 1,5 GW da rede quando 60 data centers se desconectaram ao mesmo tempo. O evento desta semana foi o dobro: 3,1 GW desapareceram da rede em 30 segundos. No pico, a rede tinha 3,49 GW de eletricidade sobressalente — cerca de 3% da demanda total da PJM no momento.
“É o canário na mina de carvão”, disse Ricardo de Azevedo, CTO da ON.Energy, ao TechCrunch. Eventos como esse estão “acontecendo cada vez mais”.
O mecanismo da falha: proteção que desprotege
A rede elétrica opera em um estado de equilíbrio quase perfeito — oferta e demanda precisam estar rigorosamente casadas. Quando o cabo caiu, a tensão oscilou. Os data centers, programados para se proteger, detectaram a flutuação e comutaram para geradores de backup — removendo sua carga da rede.
O problema: todos fizeram isso ao mesmo tempo. “A maioria dos data centers toma decisões em frações de segundo”, explicou Ali Zain Banatwala, especialista em modelos de mercado da Independent Electricity System Operator. Quando a oscilação de tensão chegou, todos se desconectaram em uma janela de poucos segundos. O que começou como uma queda relativamente pequena na oferta virou uma queda ainda maior na demanda, jogando a oferta para cima e causando as oscilações de luz.
“Precisamos encontrar uma maneira para que essas cargas, localizadas lado a lado, se desconectem ou reconectem sequencialmente“, disse Banatwala. Um processo mais ordenado permitiria que os operadores da rede desenvolvessem procedimentos mais robustos.
A solução: data centers que absorvem em vez de fugir
A startup ON.Energy está trabalhando exatamente nisso. A empresa desenvolveu um sistema de energia ininterrupta (UPS) para campi inteiros de data centers — cobrindo não apenas servidores, mas também chillers e equipamentos auxiliares.
Na prática, o data center fica “escondido” atrás de um banco de baterias conectado a equipamentos sofisticados de conversão de energia. O que a rede “vê” é uma carga única, consistente e bem-comportada — não os picos e vales de cada componente individual.
Mais importante: o sistema permite que os data centers absorvam flutuações da rede em vez de se desconectarem. Se a tensão sobe, as baterias absorvem o excesso. Se cai, o sistema despacha energia para os servidores. Tudo em milissegundos.
A ON.Energy está atualmente instalando 3 gigawatts desses sistemas em quatro campi diferentes de data centers.
Reguladores acordando
Os operadores de rede também estão se mexendo. A ERCOT (Texas), por exemplo, vai passar a exigir que grandes cargas como data centers “suportem” perturbações em vez de se desconectarem — o chamado ride-through.
Mas o relógio está correndo. Em 2024, data centers representavam cerca de 6% da carga da PJM. A projeção da Synapse Energy Economics é que cheguem a 24% até 2040. Se o problema da desconexão simultânea não for resolvido, eventos como o desta semana podem se tornar rotina — e em escala muito maior.
O que isso significa para o Brasil
O Brasil está entrando na onda dos data centers de IA: a AWS anunciou investimento de R$ 10,1 bilhões no país, a Microsoft está expandindo sua região Brazil South, e a Scala Data Centers tem planos ambiciosos para o mercado latino-americano. Embora a matriz elétrica brasileira seja mais diversificada (hidrelétrica, eólica, solar), a concentração geográfica de data centers em regiões como São Paulo e Rio de Janeiro pode criar vulnerabilidades semelhantes.
O Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) ainda não tem regras específicas para o comportamento de data centers durante perturbações. O caso da PJM é um alerta: regulação preventiva é mais barata — e mais segura — do que reagir depois do apagão.
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