Os irmãos Patrick e Ryan Coughlin, cada um com carreiras impressionantes no setor de tecnologia — Patrick trabalhou em defesa cibernética nacional e passou por Splunk e Cisco; Ryan atuou em produtos de consumo na Apple e Spotify — acabam de lançar um tipo completamente novo de startup de segurança.
A Savi Security quer proteger pessoas comuns da nova geração de golpes gerados por inteligência artificial — incrivelmente convincentes — seja por texto, email ou chamada telefônica. A empresa acaba de levantar US$ 7 milhões em financiamento seed e lançou seu aplicativo para iPhone e Android nesta terça-feira (7 de julho de 2026). A rodada foi liderada pela Acrew Capital, com participação de Magnify Ventures, TTCER e Resolute Ventures.
O sequestro que nunca aconteceu
A inspiração para a empresa veio de um incidente aterrorizante envolvendo a mãe dos fundadores. Há cerca de dois anos, a mãe de Patrick Coughlin ligou para ele, desesperada, dizendo que tinha acabado de receber uma chamada de um homem afirmando ter sequestrado a irmã de Coughlin.
O telefone dela tocou com o caller ID da filha. Durante a chamada, “ela acha que ouve a voz da minha irmã dizendo: ‘Mãe, eles me pegaram’. Há um grito de gelar o sangue, e então minha irmã diz: ‘Você tem que fazer o que eles mandarem’. E então um homem entra na linha e diz: ‘Se você não nos pagar US$ 1.200 agora mesmo, vamos matar sua filha no estacionamento do Walmart local'”, contou Coughlin.
O golpista havia falsificado com precisão o número, a voz da irmã e até mencionou a localização exata do Walmart que ela frequentava. Felizmente, a mãe manteve a calma, ligou para a filha e descobriu que ela estava bem. O sequestro era um golpe gerado por IA.
“O que eu pensei, depois de acalmar minha mãe, foi: o que mudou fundamentalmente na economia do cibercrime para que agora consigamos usar o mesmo nível de sofisticação que eu via direcionado a agências governamentais e depois a empresas Fortune 500 — e agora estamos usando essa sofisticação contra o consumidor comum?”
A resposta, claro, são LLMs baratos e poderosos e outras ferramentas de IA generativa.
O golpe ficou barato demais
Antes da IA, perseguir esse tipo de fraude contra consumidores não valia a pena financeiramente. Exigia pesquisa aprofundada sobre o alvo, tecnologia para falsificar vozes e outros recursos. Ataques desse calibre eram direcionados apenas a alvos de alto valor, como empresas ou governos — assim como a tecnologia para se defender deles.
“Tem algo acontecendo agora com consumidores, com a IA nas mãos de criminosos cibernéticos”, diz Coughlin. Os custos para perpetrar esses golpes se tornaram insignificantes, e o material de pesquisa, facilmente disponível. “Você pode clonar uma voz com três segundos de áudio de um post público em rede social. Todos nós temos esses rastros por aí — seja narrando algo, comentando um jogo de futebol do filho enquanto filma, postando no Facebook.”
A FTC (agência de proteção ao consumidor dos EUA) informou no mês passado que pessoas que reportaram crimes online perderam coletivamente US$ 3,5 bilhões em golpes de impostores em 2025, o triplo do valor de 2020. Pesquisa da Malwarebytes de 2025 mostrou que a Geração Z foi alvo de mais golpes por texto que outras gerações — e caiu neles em cerca de 25% das vezes.
O app que escuta golpes em tempo real
Os irmãos Coughlin testaram sua ideia primeiro com um site gratuito chamado Scam Wise. Anônimo, sem necessidade de cadastro: basta fazer upload de textos, fotos ou emails suspeitos que o sistema determina se provavelmente é falso. “Lançamos há cerca de quatro meses. Já tivemos 50.000 envios e agora cresce em cerca de 10.000 por semana”, disse Coughlin.
O Scam Wise serviu como fonte de dados reais para treinar o modelo de detecção de golpes da Savi. A startup está usando majoritariamente o Google Gemini, mas construiu seu software sobre um gateway de IA que permite alternar entre modelos conforme necessário, incluindo opções específicas para detecção de voz.
Na terça-feira, a Savi lançou seu produto pago: um app para iOS e Android que filtra textos, correios de voz e chamadas recebidas em busca de golpes. Mas o recurso mais impressionante é o monitoramento de chamadas ao vivo: durante uma conversa telefônica suspeita, o usuário pode adicionar o agente ao vivo do app como ouvinte. A Savi escuta indicadores comportamentais que podem identificar se a situação é um golpe enquanto a chamada ainda está em andamento.
O modelo de preços também é diferente do usual: US$ 8 por mês (ou US$ 63 por ano com desconto) cobre uma família inteira, sem limite de membros. “Se você tem uma mãe idosa que mora em outra cidade, ela está coberta. Seus filhos adolescentes também”, explicou Ryan Coughlin.
O que isso significa para o mercado
A Savi representa uma nova categoria de cibersegurança: defesa proativa para consumidores contra ameaças habilitadas por IA. É a outra face da mesma moeda — as mesmas tecnologias que tornam os golpes mais sofisticados também podem ser usadas para detectá-los.
O timing é estratégico. Com a FTC reportando perdas recordes, legisladores americanos discutindo regulação de voice cloning e deepfakes, e a conscientização pública sobre golpes de IA crescendo, a Savi está entrando em um mercado que mal existia dois anos atrás — e que promete crescer exponencialmente.
Para o Brasil, onde golpes por WhatsApp e chamadas falsas já são epidêmicos, a abordagem da Savi é particularmente relevante. Embora o app esteja disponível apenas em inglês no lançamento, a tecnologia de detecção comportamental de golpes é independente de idioma — os padrões de manipulação, urgência falsa e engenharia social são universais.
Descubra mais sobre noticiAI
Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.



