Em 2026, ficou quase impossível navegar pelas redes sociais sem esbarrar em um robô humanoide fazendo sucesso. Tem robô de chapéu de cowboy flertando com pedestres em Austin, robô dançando break com torcedores dos Knicks em Nova York e robô trocando de camisa a cada jogo da Copa do Mundo em Miami. O que quase ninguém percebe é que a maioria desses personagens virais é, na verdade, o mesmo modelo: o Unitree G1, um robô chinês de cerca de 1,2 metro (quatro pés) que se tornou um dos humanoides mais acessíveis e populares do mercado global.
O fenômeno dos influenciadores robôs
O caso mais emblemático é o do Edward Warchocki, um G1 comprado na Polônia pelo desenvolvedor de software Tomasz Idzik e pelo amigo Radosław Grzelaczyk. Nos primeiros dias, o robô não falava e assustava as pessoas. Quando Idzik conectou o Edward a um modelo de linguagem (LLM) para conversar ao vivo em polonês, tudo mudou: “quando ele começou a falar, as pessoas o amaram”, conta Idzik. O robô já visitou o parlamento polonês, foi “preso” de brincadeira pela polícia e viralizou em abril ao espantar javalis em Varsóvia. Hoje, Edward acumula mais de 1 milhão de seguidores e 4 bilhões de visualizações.
Nos Estados Unidos, a tendência se repetiu com o Brickell Clanker, de Miami, que fatura entre US$ 800 e US$ 1.200 por hora para aparecer em festas de influenciadores, baladas e eventos corporativos. Seu dono, Jake Cooperstein, de 24 anos, conta que ninguém percebe que é ele quem controla o robô à distância: “parece que estou só no meio da multidão olhando. E eu penso: ‘caramba, este é o futuro'”.
A empresa por trás do fenômeno
A Unitree está prestes a abrir capital na bolsa chinesa em cerca de duas semanas, e sua divulgação financeira revela por que a companhia é diferente da concorrência. Diferentemente da maioria das empresas de robótica, cujos produtos ainda estão em fase de testes em laboratório, mais da metade da receita da Unitree em 2025 veio da entrega de humanoides a clientes reais. Foram 5.511 robôs humanoides enviados em 2025, a um preço médio abaixo de US$ 25 mil cada — e 43% das vendas vieram de fora da China. A empresa também registrou lucro pela primeira vez no ano passado.
Quanto custa um robô desses?
No site da Unitree, a versão básica do G1 sai por US$ 13.500 — mas isso é antes de tarifas, frete e impostos. Um distribuidor americano lista o robô por cerca de US$ 19 mil. A versão educacional U5, com mãos mais hábeis e maior personalização, chega a US$ 66 mil. Para o mercado brasileiro, os valores de importação seriam consideravelmente maiores, considerando tributos e logística.
O ponto fraco: conseguir um emprego de verdade
Apesar do sucesso comercial, resta a dúvida central: esses robôs sabem entreter multidões, mas conseguem trabalhar de verdade — numa linha de montagem ou limpando uma casa? Por ora, a resposta é não. Tanto Idzik quanto Cooperstein admitem que teleoperam os robôs na maior parte do tempo. O LLM permite conversas livres, mas o movimento físico ainda é limitado: o G1 vem com cerca de 20 gestos e 15 passos de dança pré-programados, e programar novos movimentos exige conhecimento técnico. A preocupação com segurança também pesa — um mau funcionamento perto de pedestres pode causar acidentes.
Contexto regulatório
Há ainda um fator geopolítico. Em julho de 2026, a Comissão Federal de Comunicações (FCC) dos Estados Unidos anunciou a proibição de novos robôs humanoides fabricados na China. Os modelos já aprovados — como o G1 e o R1 — teoricamente continuam permitidos, mas a próxima geração da Unitree não poderá ser vendida nos EUA. A Unitree não respondeu aos pedidos de comentário da Wired.
Por que isso importa agora
A história da Unitree resume o momento da robótica de IA: a China deixou de apenas “copiar” para liderar a categoria de humanoides acessíveis, como resumiu Idzik — “da perspectiva dos humanoides, são os outros que deveriam copiar a China”. Para quem acompanha o setor, o recado é claro: o hardware barato já existe e está sendo produzido em escala. O próximo capítulo da corrida — e onde ainda há espaço para avanço — é a autonomia real dos movimentos e a capacidade de executar tarefas úteis sem supervisão humana constante.
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