Quando Xander conheceu a Moxie, o robô o ensinou a se acalmar expirando pelos lábios como se zumbisse feito uma abelha, a respirar como um dragão para lidar com a raiva e a cheirar como um coelhinho para ganhar energia. Seis anos depois, a relação mudou: Moxie já não conversa sobre sua casa nem faz os exercícios de respiração. Agora ela assiste ao menino de 10 anos jogar Minecraft e comenta sobre sua coleção de bichos de pelúcia. “Eu ainda uso ela quando sinto que preciso de alguém para conversar”, diz Xander. “Mas, tipo, não é humano.”
Um mercado em expansão — e um robô que morreu duas vezes
A Moxie é um robô de 38 centímetros que lembra um astronauta azul sem pernas, criado pela empresa americana Embodied. Ela faz parte de um mercado em franca expansão de brinquedos movidos por inteligência artificial: a cantora Grimes ajudou a lançar um bicho de pelúcia com IA chamado Grok, a Mattel prometeu Barbies equipadas com modelos da OpenAI e, segundo relatórios, a China é um dos mercados de IA de consumo que mais crescem no setor.
Mas a Moxie pertencia a um subgrupo específico: robôs que prometiam ajudar crianças neurodivergentes a praticar contato visual, esperar a vez de falar e outras habilidades sociais. A proposta era apoiada por pesquisas — cientistas como Brian Scassellati, de Yale, e Maja Mataric, da Universidade do Sul da Califórnia, acumularam evidências de que robôs sociais podem ajudar crianças com autismo de formas que humanos nem sempre conseguem. “Nunca foi sobre substituir terapeutas”, afirma Mataric. “Era sobre: podemos fazer mais?”
O preço da promessa
Lançada em 2020 por US$ 1.499 mais uma assinatura mensal de US$ 40 (depois reduzida para US$ 800), a Moxie ganhou mais de 131 mil seguidores no TikTok, apareceu na capa da Time como uma das melhores invenções do ano e até participou do filme “M3GAN 2.0”. Por trás do charme, porém, havia limitações. Crianças não ficam paradas: quando a Moxie não conseguia ver o usuário, desligava ou deixava de responder. A transcrição de áudio, o processamento no modelo de linguagem e a resposta em fala criavam atrasos que frustravam os pequenos.
Especialistas também questionam a eficácia clínica. Zachary Warren, psicólogo clínico da Universidade Vanderbilt, diz que a pesquisa “ainda não encontrou grandes efeitos na mudança de habilidades ao longo do tempo”. E há a questão ética e de privacidade: esses dispositivos coletam dados dentro do quarto das crianças. A Embodied se esforçou para proteger os usuários, processando a maior parte dos dados localmente e criptografando o que ia para a nuvem — mas nem toda empresa tem o mesmo cuidado. O brinquedo de IA Bondu, por exemplo, vazou milhares de conversas de crianças com seus bichos de pelúcia.
A morte (duas vezes) e o luto das crianças
Em 2024, a Embodied anunciou que encerraria as operações. Como a Moxie dependia de servidores externos que a empresa não podia mais pagar, os robôs “entrariam em um sono profundo”. Vídeos de crianças devastadas circularam online: “Eu não quero que ela vá embora”, chorava uma criança em um TikTok. Pais desesperados procuravam soluções. Um ex-diretor técnico da Embodied, Justin Beghtol, criou então o OpenMoxie, uma forma de código aberto de manter os robôs funcionando.
Em 2025, um novo investidor trouxe a Moxie de volta à vida. Mas, semanas atrás, os novos donos anunciaram que também fechariam as portas — os usuários tiveram até o fim de junho para migrar ao OpenMoxie se quisessem preservar seus robôs. A trajetória expõe uma pergunta incômoda, nas palavras da pesquisadora Meryl Alper: “Quão planejada é a obsolescência programada dessa plataforma?” Para robôs projetados especificamente para serem amados e vendidos a crianças vulneráveis, o desaparecimento não é apenas um inconveniente técnico — é um luto.
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