A fabricante de chips de memória Micron, sediada em Boise, Idaho, tornou-se a nova queridinha de Wall Street. A empresa, conhecida do consumidor comum pelos cartões de memória que turbinavam PCs e smartphones, está surfando uma onda muito maior: o boom dos data centers de inteligência artificial.
De cartão de memória a gigante de US$ 1,27 trilhão
Na última sexta-feira (27), a Micron fechou o pregão com valor de mercado de aproximadamente US$ 1,27 trilhão — patamar que rivaliza com Meta (US$ 1,39 tri) e Tesla (US$ 1,42 tri). As ações dispararam mais de 236% em apenas um mês, encerrando a US$ 1.132 cada. Para efeito de comparação, até meados de 2025 o papel passou anos abaixo dos US$ 100.
O que explica essa ascensão meteórica? A resposta está na sigla HBM: High-Bandwidth Memory, ou memória de alta largura de banda. Um único servidor de IA consome magnitudes mais memória do que um laptop — e a Micron é um dos principais fornecedores mundiais de chips DRAM e NAND, incluindo o cobiçado HBM.
RAMageddon: o aperto que não vai passar tão cedo
Fabricantes de sistemas de IA como a Nvidia, além de hyperscalers como Microsoft, Amazon AWS, Google, Meta e Oracle, estão comprando enormes quantidades de memória. Essa demanda insaciável força todos os outros setores — de fabricantes de PCs como Dell e HP a produtores de consoles — a estocar chips também.
O fenômeno, apelidado de “RAMageddon”, deve persistir até pelo menos 2027, segundo análises do IDC. O reflexo já é visível: produtos como iPhones e Xbox estão ficando mais caros por causa do custo dos componentes de memória.
Resultados que impressionam
No terceiro trimestre fiscal, a receita da Micron quadruplicou ano a ano, saltando para US$ 41,45 bilhões. O lucro disparou de US$ 1,88 bilhão para impressionantes US$ 28,2 bilhões no mesmo período. A projeção para o quarto trimestre é ainda mais otimista: entre US$ 49 bilhões e US$ 51 bilhões em receita.
O risco do ciclo de commodities
Historicamente, o problema das fabricantes de chips de memória é cíclico: expandir a capacidade de produção leva anos e bilhões de dólares, e quando as novas fábricas finalmente ficam prontas, a demanda muitas vezes já caiu — gerando excesso de oferta e queda de preços.
A Micron tenta se blindar desse risco com uma estratégia de acordos de fornecimento de longo prazo. A empresa revelou ter assinado 16 contratos estratégicos em segmentos de data center, consumo e automotivo — incluindo clientes como Nvidia e o laboratório de IA Anthropic. “Acreditamos que isso transformará fundamentalmente nosso modelo de negócios”, afirmou a empresa em sua apresentação de resultados.
O analista Sebastien Naji, da William Blair, reforçou a confiança: “Dada a forte probabilidade de crescimento contínuo dos preços médios de venda nos próximos trimestres e a melhora na previsibilidade da receita graças aos contratos de longo prazo, vemos potencial para um crescimento de lucros mais duradouro e reiteramos nossa recomendação de outperform.”
O que isso significa para o mercado de IA
A ascensão da Micron é um termômetro do momento da infraestrutura de IA. O apetite insaciável por capacidade computacional está gerando efeitos de segunda ordem por toda a cadeia de suprimentos — e a memória é um dos elos mais críticos. Se a Micron conseguir de fato escapar do ciclo de boom-e-bust que historicamente assombra o setor de semicondutores, o caso pode redefinir como investidores avaliam empresas de hardware para IA.
A pergunta que fica é se os contratos de longo prazo serão suficientes para proteger a empresa quando — e não se — a bolha de gastos em infraestrutura de IA eventualmente desacelerar.
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