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OpenAI reivindica solução do Navier-Stokes e acende crise de confiança com matemáticos

OpenAI afirma ter usado 10 mil agentes de IA para atacar o Navier-Stokes, um problema do Prêmio Millennium. Matemáticos cobram transparência e questionam o crédito.

OpenAI reivindica solução do Navier-Stokes e acende crise de confiança com matemáticos

O anúncio que dividiu a matemática

A OpenAI passou os últimos anos fincando bandeiras no terreno cada vez mais difícil da matemática. Nesta semana, reivindicou um dos maiores troféus até aqui: uma solução para um dos problemas do Prêmio Millennium — o de Navier-Stokes, que descreve o fluxo de fluidos.

Para chegar lá, a empresa afirma ter usado cerca de 10 mil agentes de IA, dezenas de milhões de dólares em computação e apenas 88 horas. Em circunstâncias normais, seria celebrado como um feito histórico. Em vez disso, boa parte da comunidade matemática reagiu com crescente desconforto.

A corrida contra dois pesquisadores

Segundo a OpenAI, a empresa ouviu que alguns pesquisadores estavam avançando em problemas do Prêmio Millennium e decidiu testar se um de seus modelos avançados, ainda não lançados, conseguiria fazer o mesmo. Conseguiu.

Mas a empresa também descobriu contra quem estava competindo: Tristan Buckmaster, professor da Universidade de Nova York (NYU), e Levent Alpöge, pesquisador da Anthropic — uma de suas rivais mais ferozes. A dupla perseguia o Navier-Stokes, embora ainda não tivesse concluído uma prova.

O que Buckmaster alega

Buckmaster afirma ter procurado a OpenAI ao saber que a empresa estava ciente do progresso deles. Segundo ele, as conversas com o pesquisador Sébastien Bubeck se tornaram tensas e, em sua visão, ameaçadoras. A empresa teria oferecido a ele “computação praticamente ilimitada” para concluir o próprio trabalho e a chance de ser o único autor do artigo da OpenAI — com a condição de excluir Alpöge, ligado à Anthropic.

“Tudo o que eu tinha que fazer era jogar o Levent debaixo do ônibus”, disse Buckmaster à The Verge. Ele classificou a oferta como “suborno” e a rejeitou.

Bubeck negou essa caracterização, mas reconheceu ter oferecido recursos para que Buckmaster concluísse a própria prova ou assumisse a redação do artigo da empresa. “Da nossa perspectiva, como podemos ter um projeto interno da OpenAI com um funcionário da Anthropic?”, disse ele ao The New York Times.

A suspeita sobre o Codex

Buckmaster também passou a questionar se a OpenAI poderia ter se beneficiado do uso que ele fez do Codex, ferramenta de IA da empresa, enquanto atacava o problema. A porta-voz Laurance Fauconnet negou categoricamente: “Podemos afirmar categoricamente que é impossível que os prompts do Dr. Buckmaster no Codex nos últimos dois meses tenham influenciado o sistema de qualquer forma, incluindo o treinamento.”

Buckmaster não se convenceu: “Dado o comportamento deles até agora, deve-se receber tais declarações com grande ceticismo.”

Um segundo episódio: o caso de Andreas Thom

Buckmaster não é o único matemático preocupado. Andreas Thom, professor da Universidade Técnica de Dresden, na Alemanha, esteve no centro de outra controvérsia no mês passado, quando a OpenAI anunciou um resultado matemático que se apoiava fortemente no trabalho dele e do colega Gábor Kun. A empresa alterou silenciosamente o anúncio para reconhecer a contribuição da dupla, sem divulgar a mudança publicamente.

Thom disse que a experiência “não foi muito agradável” e que ficou com uma pergunta não respondida: se conversas que ele e colegas tiveram com o ChatGPT sobre a pesquisa poderiam ter sido usadas para melhorar os modelos que acabaram resolvendo o problema. “Só a OpenAI tem a informação para responder a isso”, afirmou. “Para ser honesto, suspeito que nem eles saibam.”

O que está em jogo

Os sete problemas do Prêmio Millennium, definidos pelo Clay Mathematics Institute em 2000, estão entre os desafios mais formidáveis da matemática. Cada um carrega uma recompensa de US$ 1 milhão. Em um quarto de século, apenas um — a conjectura de Poincaré — foi resolvido.

Para uma empresa de IA que quer provar que seus modelos são os melhores em matemática, eles são alvos irresistíveis. Para muitos matemáticos, isso explica a ferocidade com que a OpenAI se moveu ao saber que outros estavam perto — principalmente quando uma rival de IA parecia envolvida.

Resistência crescente

Em junho, matemáticos publicaram a Declaração de Leiden, um conjunto de princípios para o uso responsável de IA na matemática, endossada pela União Matemática Internacional e assinada por quase 3.900 pessoas. O documento pede que governos e mídia não comprem o “hype” de empresas que “exageram as capacidades de seus produtos”.

Durante a controvérsia do Prêmio Millennium, a OpenAI retirou o patrocínio de um hackathon de matemática na Caltech após forte oposição. Shing-Tung Yau, medalhista Fields, disse que se preocupa com o efeito sobre jovens pesquisadores: “Trabalhar em problemas difíceis já carrega risco considerável para alunos de doutorado e professores juniores.” Yau também apontou um problema de conflito de interesses: a OpenAI ocupa posição peculiar como provedora de ferramentas de pesquisa e, ao mesmo tempo, competidora.

O que vem pela frente

A OpenAI não saberá se “venceu” o Prêmio Millennium tão cedo. O Clay Mathematics Institute exige um período de dois anos após a publicação, durante o qual o resultado precisa receber “aceitação geral na comunidade matemática global”. Por ora, o Navier-Stokes ocupa um limbo peculiar: foi removido da lista de problemas não resolvidos, mas ainda não foi declarado resolvido.

A empresa, porém, já seguiu em frente. Fauconnet afirmou que “desde a conclusão do Navier-Stokes, fizemos progresso substancial em outro problema do Prêmio Millennium”. Especula-se nas redes que possa ser a conjectura de Hodge. Também circulam rumores de que a Anthropic estaria perto de um problema do Prêmio Millennium por conta própria.

No centro de tudo, permanece uma pergunta que ecoa disputas já vistas entre escritores, músicos e artistas contra empresas de IA: o que as companhias devem às pessoas cujo trabalho acumulado foi usado para construir seus sistemas?



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Sobre o autorRedação Noticiai

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