A Anthropic anunciou na semana passada que passaria a embutir marcas d’água invisíveis no texto gerado pelo Claude, para cumprir o AI Act da União Europeia. Em poucas horas, desenvolvedores já divulgavam formas de contornar o mecanismo — e um código de remoção se tornou viral no GitHub.
O script, criado por um desenvolvedor identificado como Meyer, acumulou mais de 20 mil favoritos no X (antigo Twitter) e atraiu mais de 100 colaboradores no repositório. “A Anthropic está embutindo marcas d’água nos textos do Claude… a questão é praticamente história apenas um dia depois”, escreveu um especialista, acompanhado de uma imagem de Meyer se libertando de correntes.
Por que isso acontece
As novas regras europeias, em vigor desde o início do mês, determinam que provedores de modelos — como Anthropic e OpenAI — rotulem conteúdo sintético de áudio, imagem, vídeo ou texto para que possa ser detectado por máquina como gerado por IA. O descumprimento pode gerar multas de até 3% do faturamento anual.
Embora as regras proíbam os próprios provedores de comercializar ferramentas de contorno, não há restrição legal sobre ferramentas independentes criadas por terceiros.
As motivações por trás da evasão
Segundo Meyer, parte das pessoas busca evitar a marcação por discordar da ideia de que todo conteúdo gerado por IA precise ser rotulado. Outras — incluindo ele — dizem simplesmente apreciar o desafio técnico. Redatores freelancers e criadores de conteúdo para redes sociais também o procuraram pedindo ajuda para usar o código.
“Não sou contra a transparência, e sou totalmente a favor da atribuição de conteúdo”, afirma Meyer. “Só acho que marca d’água em si é uma solução ruim, porque tem desvantagens e riscos grandes.” Ele cita o risco de falsos positivos e o fato de o mecanismo não distinguir entre uso leve e pesado de IA — especialmente relevante para quem usa o Claude para polir textos escritos à mão.
Um jogo de gato e rato
O episódio ilustra uma tensão central da governança de IA: marcas d’água são, por natureza, padrões estatísticos embutidos no texto, que podem ser degradados por paráfrase, tradução ou pós-processamento. Cada avanço na detecção tende a ser seguido por uma técnica de remoção — e vice-versa.
Para o público brasileiro, o tema importa porque a legislação europeia costuma servir de modelo regulatório em discussões globais, inclusive no Brasil, onde o Marco Legal da IA avança no Congresso. A disputa sobre marcas d’água antecipa o tipo de impasse que governos e plataformas enfrentarão ao tentar tornar a IA “rastreável”.
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