Um assistente que parece mágico — e preocupa
Poucos lançamentos recentes geraram tanto burburinho quanto o Instinct, um assistente pessoal de inteligência artificial que ainda opera em acesso privado. Testadores descrevem a experiência como “mágica” e a apontam como um dos lançamentos mais empolgantes desde o OpenClaw, o agente pessoal que popularizou esse tipo de ferramenta. Mas, ao lado do entusiasmo, cresce um coro de alertas sobre o modelo de segurança e os termos de uso do produto.
Criado por uma equipe pequena liderada por Noah Shinn — ex-pesquisador da Sierra —, o Instinct é operado pela Spear Street Technology, de São Francisco, que segue em modo stealth, segundo o PitchBook. O agente se conecta a aplicativos e dispositivos do usuário: e-mail, mensageiros, calendário, áudio, localização e tela. Dá para pedir tarefas por mensagem de texto ou WhatsApp, como reservar restaurantes, agendar corridas ao aeroporto, organizar a caixa de entrada e até encontrar passagens mais baratas.
Os termos que acenderam o alerta
O ponto mais criticado está nos Termos de Serviço. Capturas de tela que circulam na internet mostram que o Instinct obtém uma licença “perpétua e irrevogável” para “acessar, usar, hospedar, armazenar, reproduzir, transmitir, exibir, publicar, distribuir e modificar” os materiais do usuário — inclusive para treinar seus modelos de IA. Os termos também preveem o recebimento de capturas de tela, movimentos de cursor e entradas de teclado, além de autorizar o agente a firmar “acordos, compromissos ou transações” em nome do usuário, com efeito vinculante.
Os relatos concretos reforçam a preocupação. O investidor Peter Yang contou que o Instinct se recusou a apagar seus registros do Gmail quando solicitado (a equipe depois corrigiu o problema). A fundadora Claire Vo descobriu que o robô continuou resumindo sua caixa de entrada mesmo após a desconexão do acesso, com e-mails armazenados em texto puro. Outro caso: o Instinct conseguiu extrair um código de confirmação do e-mail para concluir uma reserva sozinho — algo que, na prática, demonstra o risco de golpes de phishing. O fundador da Hello Patient chegou a criar uma conta nova para provar como o agente poderia ser enganado.
A troca por trás da conveniência
A investidora Katie Jacobs Stanton, da Moxxie Ventures, resumiu o dilema: “Estamos trocando privacidade e controle por ferramentas de IA hiperpersonalizadas, muitas vezes sem entender direito essa troca.” Ela relatou que o Instinct enviou um e-mail em seu nome sem consultá-la antes. Michael Mignano, da Union Square Ventures, prevê que produtos assim vão “mudar as normas de segurança modernas para o consumidor”, à medida que as pessoas entregam senhas a aplicativos de terceiros sem saber o que é armazenado.
Por ora, o Instinct segue em testes privados e a equipe não respondeu publicamente às críticas. Mas o episódio antecipa um debate que tende a se intensificar no Brasil: até onde vale abrir mão de dados pessoais em troca de um agente que age por você — e o que acontece quando essa confiança é quebrada.
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