De energia limpa para gás natural
Depois de anos adquirindo projetos de energia eólica e solar, os hiperscalers — Amazon, Google, Meta e Microsoft — apostam agora que o gás natural vai alimentar os data centers por trás de suas ambições de inteligência artificial. Mas um novo relatório de pesquisa sugere que eles podem se arrepender dessa aproximação com o combustível fóssil.
Os preços do gás natural podem triplicar em algumas regiões dos Estados Unidos nos próximos anos, à medida que a demanda dos hiperscalers colide com o crescimento desacelerado da oferta e o aumento das exportações de gás natural liquefeito (GNL), segundo a Noreva, empresa de pesquisa de energia.
“Acho que todo mundo no mercado de energia foi levado a acreditar que os preços do gás não podem subir”, disse Peter Gardett, CEO da Noreva, ao TechCrunch. “Basta aritmética simples para chegar a um mercado de gás muito mais apertado do que você tinha há poucos anos.”
Apostas bilionárias
O gás barato levou os hiperscalers a travar parte do mercado. Em março, a Meta anunciou a construção de uma enorme usina de gás natural de 7,5 gigawatts na Louisiana para alimentar seu data center Hyperion. Dias depois, Microsoft e Google anunciaram cada uma suas próprias usinas de gás em escala de gigawatt, ambas no Texas. E a Amazon planeja uma usina de gás de 7,6 gigawatts também no Texas.
Para empresas que historicamente evitavam grandes despesas de capital, o boom de data centers as empurrou para investimentos pesados no mundo físico — e ainda mais fundo nos mercados de energia, território ainda menos familiar.
O risco de preço
A Noreva espera que os preços do gás natural subam acima de US$ 10 por milhão de BTUs em certos hubs. Hoje, os preços variam de US$ 2 a US$ 4,50 por milhão de BTUs, com o Henry Hub (Louisiana) — a referência mais negociada — logo abaixo de US$ 3.
Como o combustível representa cerca de metade do custo da eletricidade de uma grande usina, dobrar ou triplicar o preço do gás pode encarecer bastante os data centers de IA que geram a própria energia (“bring your own power”). Isso pode elevar o custo por token ou empurrar os hiperscalers de volta para a rede elétrica, pressionando os preços da eletricidade para cima.
Por ora, os contratos futuros não antecipam grandes mudanças. “Não é uma aposta irracional”, reconhece Gardett — mas ele não está convencido de que estejam certos.
Por que a conta muda agora
Os preços ficaram estáveis graças a anos de demanda relativamente estável e à adição constante de novas ofertas. O que muda o cenário, segundo o relatório, é a conexão do mercado doméstico de gás ao mercado global — e a tração da demanda por IA.
No oeste do Texas, a maior parte dos poços se concentrava em petróleo, e o gás natural era um subproduto sem mercado. Sem grandes gasodutos, os produtores vendiam o gás com desconto. Isso está mudando: novos gasodutos foram construídos, e boa parte do gás agora segue para mercados de exportação.
Impacto na conta e na reputação
Mesmo que os hiperscalers consigam absorver preços mais altos, o consumo de gás natural pode adicionar uma nova dimensão à reação pública contra os data centers. Já hoje, 80% dos consumidores americanos se preocupam com o impacto dos data centers em suas contas de energia elétrica — e essa angústia pode se espalhar para as contas de gás.
“Nas futuras teleconferências de resultados da Alphabet, você vai ouvir falarem da correlação entre o preço do gás natural e os resultados do Google, o que é estranho, mas é onde estamos”, disse Gardett.
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