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Flock Safety construiu IA que identifica e rastreia motoristas para a polícia

Investigação da WIRED revela o OS Investigate, IA que transforma leitura de placas em vigilância por padrões de movimento, com 69 prompts para a polícia.

Flock Safety construiu IA que identifica e rastreia motoristas para a polícia

O que a Flock Safety construiu

A gigante de vigilância veicular Flock Safety repetiu durante anos que sua tecnologia “não pode reconhecer, identificar ou rastrear indivíduos”. Agora, a empresa construiu um sistema que faz as duas coisas: uma ferramenta de inteligência artificial para a polícia capaz de identificar motoristas e rastrear veículos apenas pelos padrões de movimento. É o que apurou a WIRED em uma investigação publicada nesta terça-feira (19).

Com base em uma rede de câmeras que registra a movimentação de motoristas em mais de 6.000 comunidades nos Estados Unidos, a ferramenta consegue apontar possíveis testemunhas pela frequência com que seus carros passam por um bairro, ou revelar os “associados” de um motorista a partir das câmeras pelas quais eles passam juntos. Como o sistema também acessa arquivos de casos policiais, registros de despacho do 911 e bancos de dados comerciais de identidade, as placas podem ser convertidas em nomes, endereços residenciais e parentes.

De “Nightshift” a “OS Investigate”

O software — originalmente chamado Nightshift e recentemente renomeado para OS Investigate — vem com 69 prompts pré-escritos que os policiais podem selecionar, revisar ou editar antes de enviar à IA. Os policiais também podem escrever seus próprios prompts.

Segundo a WIRED, os prompts ficavam em um cache de mais de 450 arquivos servido pelo próprio site da Flock, acessível a qualquer pessoa que carregasse as páginas de login. O código descreve 45 ferramentas à disposição da IA, dando acesso a escaneamento de placas, metadados de câmeras, registros de prisão, arquivos de casos, logs de despacho, resultados de balística e bancos de dados comerciais que contêm números de Seguro Social, datas de nascimento, telefones, e-mails, parentes e associados.

A inversão do modelo de vigilância

A Flock construiu seu negócio em uma transação simples: uma câmera fotografa um carro que passa, converte a placa em texto e verifica contra uma lista de veículos procurados. Carros que não estão na lista são registrados e ignorados.

Os prompts pré-carregados do OS Investigate descrevem uma inversão desse arranjo. O policial não precisa mais de uma placa, um nome ou um crime para começar. Ele fornece um local, um intervalo de tempo e um padrão de comportamento — e o sistema devolve as pessoas que se encaixam.

Um dos prompts diz: “Encontre-me testemunhas com base nos veículos mais vistos em [bairro] durante [últimos 14 dias] durante [período diário]”. Outro instrui o sistema a listar todos que foram presos mais de duas vezes em dois anos por “qualquer crime” e a mapear onde moram, recuperar as chamadas de serviço em suas casas e “fazer um levantamento dos 3 principais indivíduos”.

Dezenove dos 69 prompts descrevem a busca por padrões em vez de consultar um registro. Quatorze não pedem placa, nome ou descrição — apenas local, janela de tempo e comportamento. O sistema também permite filtrar por sexo, raça, etnia, altura, peso, porte físico, cicatrizes, marcas e tatuagens.

Reação de especialistas

“Eu não sei como dizer isso de outra forma, mas isso soa completamente insano”, disse Noel Pichardo, ex-policial de Pawtucket (Rhode Island) que teve contato com a tecnologia da Flock em um programa piloto e revisou os prompts para a WIRED. “Não sei como alguém pode argumentar contra a ideia de que a Flock literalmente rastreia pessoas.”

Jay Stanley, analista sênior de políticas da ACLU, compara a situação à China: “Estamos cada vez mais vendo a implantação agressiva de IA pela Flock. E, de certa forma, como na China, há muito pouco espaço entre o que pode ser feito e o que está sendo feito.”

Contexto: pressão e abusos

A Flock hoje registra cerca de 20 bilhões de escaneamentos de placas por mês, com investimentos de Andreessen Horowitz, Founders Fund e outros fundos de capital de risco, e avaliação de US$ 7,5 bilhões na rodada mais recente.

A empresa chega ao novo sistema sob escrutínio. Um policial do Texas buscou mais de 83.000 câmeras no país no ano passado enquanto procurava uma mulher que havia feito um aborto autoinduzido. Uma análise do Washington Post encontrou 50 policiais acusados de uso indevido de sistemas de leitura de placas — 26 deles para rastrear esposas, namoradas, ex-parceiras e mulheres que queriam conhecer.

A Electronic Frontier Foundation analisou mais de 12 milhões de buscas registradas em 10 meses e descobriu que cerca de 20% davam apenas um termo vago como justificativa (“investigação”, “suspeito” ou “consulta”).

Por que isso importa agora

Para o público brasileiro, o caso Flock antecipa o debate sobre vigilância automatizada e “policiamento agêntico” — o uso de agentes de IA para vasculhar bases de dados massivas a partir de linguagem natural. Andrew Guthrie Ferguson, professor de direito da Universidade George Washington, resume: “Estamos à beira da era do policiamento agêntico, e a capacidade de criar chatbots de linguagem natural para pesquisar dentro de conjuntos de dados massivos em breve se tornará a norma.”



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Sobre o autorRedação Noticiai

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