Uma agricultora na Índia rural fotografa uma planta doente. Ela quer pesquisar sobre o problema na internet, mas não fala inglês. Não deveria precisar. Esse é o tipo de problema que a Current AI, uma organização sem fins lucrativos, está tentando resolver construindo infraestrutura de IA pública e aberta — uma espécie de “World Wide Web da inteligência artificial”, gratuita para todos.
US$ 400 milhões para uma alternativa pública à IA
Fundada em fevereiro de 2025 por Martin Tisné, a Current AI opera como uma parceria público-privada que reúne governos, empresas e filantropias para financiar tecnologia de interesse público. O governo francês fez a doação inicial de US$ 100 milhões, com adesão da Ford Foundation, MacArthur Foundation, DeepMind e Salesforce — totalizando US$ 400 milhões em financiamento comprometido. “Eles não são investidores; são financiadores”, explicou a CEO Ayah Bdeir em entrevista ao TechCrunch.
Bdeir, que assumiu o cargo em janeiro após liderar a estratégia de IA da Mozilla e fundar a littleBits (empresa de educação STEM que alcançou milhões de crianças antes de ser vendida para a Sphero em 2019), tem uma visão clara: “Se a IA é realmente uma tecnologia transformadora, se vai mudar todos os aspectos da vida de todas as pessoas, precisa existir uma alternativa pública. Como a World Wide Web, disponível para qualquer um, de graça.”
Suno Sutra: IA offline em 22 idiomas indianos
O primeiro resultado concreto dessa visão apareceu em fevereiro, durante a India AI Summit. Em parceria com a Bhashini, a divisão de linguagem de IA do governo indiano, a Current AI criou o Suno Sutra (do hindi “crônicas da escuta”), um dispositivo de bolso que roda IA em 22 idiomas indianos sem precisar de conexão com a internet. O hardware é open source, disponível para comunidades de desenvolvedores construírem em cima.
“Na Índia, existem centenas de línguas e dialetos diferentes, e agora a IA não está representando nenhum deles”, disse Bdeir. Metade dos idiomas falados no mundo enfrenta risco de extinção. “Com o inglês conduzindo os maiores modelos de linguagem e sistemas de IA, a maior parte das línguas do mundo — e, consequentemente, culturas e comunidades — fica para trás.”
Além do idioma: soberania de dados
Quando questionada sobre os esforços multilíngues das big techs, Bdeir traçou uma distinção contundente. “As big techs constroem modelos multilíngues para expandir seu mercado, independentemente de consentimento ou contexto.” As consequências são concretas: “Para línguas indígenas, traduções missionárias da Bíblia viram dados de treinamento antes que as comunidades tenham estabelecido qualquer regra.”
A abordagem da Current AI é armazenar modelos e dados localmente, trazendo especialistas da comunidade antes de qualquer coisa ser construída, e escrevendo protocolos de consentimento no pipeline — as comunidades podem interromper o processo a qualquer momento.
Sobre a questão da propriedade dos dados, Bdeir não economizou palavras: “Existem diferentes modelos e propostas sobre quem é dono dos dados em várias comunidades, mas uma coisa é certa: não deveria ser uma empresa no Vale do Silício tentando deixar alguns milhares de pessoas mais ricas.”
US$ 3,2 milhões em grants para quatro continentes
No mês passado, a Current AI anunciou sua primeira rodada de financiamento: US$ 3,2 milhões distribuídos entre quatro organizações em três continentes:
- Masakhane (Quênia): construindo datasets de IA em mais de 50 línguas africanas para saúde, agricultura e educação.
- Institute for Worldmaking (Líbano): digitalizando história cultural árabe e práticas contemporâneas em bancos de dados que as comunidades — não as empresas de tecnologia — controlam.
- Portal sem Porteiras (Brasil): construindo ferramentas de IA offline com comunidades indígenas da Amazônia, mantendo os dados dentro do território.
- African Internet Rights Alliance (Quênia): desenvolvendo ferramentas de auditoria para responsabilizar sistemas de IA em todo o continente.
“Escala nem sempre é a medida. Esse é o paradigma das big techs”, disse Bdeir. “Isso poderia parecer um ancião indígena na Amazônia brasileira usando uma ferramenta construída no Quênia para transmitir conhecimento ecológico em sua própria língua.”
Alpha Chat e a stack aberta
No início de julho, durante o AI for Good Summit em Genebra, a Current AI lançou o Alpha Chat, um chatbot open source montado em sete semanas por uma coalizão de dez organizações, incluindo Hugging Face, Mozilla e MIT Media Lab. Cada contribuinte trouxe uma peça da stack: modelo de linguagem, ferramentas de segurança e poder computacional.
A organização também fechou um acordo com a Sakana AI, startup de Tóquio conhecida pelo trabalho em IA Soberana. As duas planejam construir uma stack de IA open source compartilhada, projetada para dar suporte ao idioma e cultura japoneses, mas também a comunidades do Sul Global que os sistemas dominantes de IA têm amplamente ignorado.
Por que isso importa
A Current AI representa uma direção alternativa ao monopólio das big techs sobre a infraestrutura de IA. Enquanto OpenAI, Google e Anthropic constroem sistemas cada vez mais poderosos — e caros — dentro de jardins murados corporativos, a Current AI está apostando que o futuro da IA precisa de uma camada pública e aberta, nos moldes do que a World Wide Web foi para a internet nos anos 1990.
Com US$ 400 milhões em caixa, parcerias com governos e uma rede crescente de organizações de base, a iniciativa ainda é pequena comparada aos orçamentos de P&D das big techs. Mas o modelo — comunidades no controle dos próprios dados, idiomas preservados em vez de substituídos, hardware offline que não depende de data centers — pode ser o embrião de uma internet da IA mais democrática.
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