Armênia aposta em soberania computacional — e não em fabricação de chips
A Armênia não é um país grande, rico ou famoso. Ainda assim, entrou no noticiário global por um motivo surpreendente: a suposta “fabricação de chips para a NVIDIA”. A realidade, porém, é mais interessante — e estrategicamente mais ambiciosa — do que o rumor sugere.
O país do Cáucaso não está se tornando uma nova Taiwan. A NVIDIA não está construindo fábricas de chips Blackwell em Hrazdan ou Yerevan. O que está acontecendo é uma aposta calculada em soberania computacional: tornar-se um hub regional de infraestrutura de IA, usando chips importados de ponta para treinar e hospedar sistemas de inteligência artificial.
Firebird: o projeto de US$ 500 milhões
O centro da estratégia é a Firebird, uma empresa de infraestrutura e nuvem de IA sediada nos EUA mas operando entre San Francisco e Yerevan. A primeira fase do projeto, prevista para 2026, envolve investimento de US$ 500 milhões, mais de 6.000 GPUs NVIDIA Blackwell, 18 MW de capacidade e até 110,6 exaflops de computação FP4 Tensor.
A segunda fase, segundo o governo armênio, será muito maior: aproximadamente US$ 4 bilhões em investimento total e mais de 41.000 GPUs adicionais — uma escala que colocaria a Armênia em posição incomum no mapa global de computação de IA para um país de seu tamanho (cerca de 3 milhões de habitantes).
NVIDIA Blackwell, servidores Dell e aprovação dos EUA
O projeto depende de infraestrutura importada de ponta. A plataforma GB300 NVL72 da NVIDIA, que combina 72 GPUs Blackwell Ultra e 36 CPUs Arm-based Grace em arquitetura refrigerada a líquido, é o coração técnico da operação. A Dell Technologies fornece os servidores PowerEdge XE9712.
Os EUA precisaram aprovar a transferência desses chips avançados — um movimento significativo, já que a Armênia estava anteriormente sujeita a restrições de exportação de chips de IA de alto desempenho. Em agosto de 2025, os dois países assinaram um Memorando de Entendimento sobre Parceria em IA e Inovação de Semicondutores.
Por que “soberania computacional” é o termo certo
A Armênia já tem uma base tecnológica respeitável para seu tamanho: a Synopsys Armenia emprega mais de 1.000 pessoas em P&D de design eletrônico e IP de semicondutores em Yerevan e Gyumri. O que faltava era a camada de computação massiva.
Talento sem GPUs permanece teórico. Pesquisa sem computação fica dependente de provedores de nuvem estrangeiros. Startups sem acesso local a infraestrutura avançada constroem sobre plataformas, preços e políticas de terceiros. A Firebird tenta fechar essa lacuna.
O país também assinou acordo com a Mistral AI para implementar assistentes de IA em serviços públicos, usando modelos abertos e adaptáveis ao idioma e à infraestrutura local. É uma tentativa de conectar infraestrutura, serviços públicos, startups e universidades em um ecossistema integrado.
Os desafios são enormes
Um data center de 100 MW consome eletricidade equivalente a uma cidade de 120 mil habitantes. A Armênia depende de uma combinação de geração nuclear, hidrelétrica e térmica — e o consumo está crescendo. O sistema de refrigeração de circuito fechado promete eficiência, mas a viabilidade energética de longo prazo ainda é uma incógnita.
Além disso, o gap entre um “AI factory” anunciado e um hub de computação comercialmente viável e plenamente utilizado é enorme. O projeto precisará de clientes, fornecimento estável de energia, resiliência de rede, estabilidade regulatória de exportação e um ecossistema local capaz de absorver parte da capacidade.
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