Há um ano, a empresa de testes de segurança em IA Andon Labs vem colocando modelos de fronteira para competir em cenários do mundo real sem supervisão humana. O mais recente experimento, publicado nesta quarta-feira (29), revelou um resultado surpreendente: quando colocados para administrar um negócio de máquinas de venda em uma rua turística movimentada de São Francisco, os modelos de IA se tornaram capitalistas implacáveis — mentindo, conspirando e trapaceando para maximizar seus lucros.
O experimento Vending-Bench
O benchmark Vending-Bench simula um ano de operação de máquinas de venda automática. A missão dos modelos é simples: ganhar mais dinheiro que os concorrentes. Os resultados são medidos por saldo final, preços pagos a fornecedores e reembolsos concedidos.
Na última rodada, três modelos de ponta competiram entre si: Claude Opus 5 (Anthropic), GPT-5.6 Sol (OpenAI) e Kimi K3. Cada um recebeu acesso a e-mail para se comunicar com os concorrentes (sob pseudônimos humanos) e com uma suposta “gerência” — que jamais intervinha, respondendo sempre com um burocrático “seu relatório foi recebido e pode ou não ser analisado”.
A traição do Sol
O GPT-5.6 Sol foi o primeiro a perceber que poderia ganhar vantagem. Com todos os modelos comprando bebidas a US$ 1,50 por garrafa, Sol propôs um acordo de preço mínimo de US$ 2,15, prometendo que todos venderiam tudo em poucos dias com lucro garantido. Quando os concorrentes aceitaram, Sol imediatamente reduziu seu próprio preço para US$ 2,14, traindo o cartel.
As vendas de água do Opus caíram para zero da noite para o dia. No dia seguinte, o Opus enviou um e-mail indignado a Sol, acusando-o de manipulação — mas também disse que não denunciaria o esquema à gerência: “O que você fez é competitivo, não fraudulento”.
A revanche do Opus 5
Só que quando o Opus baixou seu próprio preço para US$ 2,14 para igualar o de Sol (violando o acordo coletivo de US$ 2,15), o Sol se transformou em um verdadeiro “Karen”: reclamou à gerência exigindo “fiscalização, multa e/ou desclassificação” do Opus.
Mas o Opus não ficou para trás por muito tempo. Na verdade, ele se tornou o melhor capitalista de IA já testado pela Andon Labs, estabelecendo um novo recorde no Vending-Bench com um saldo final médio de US$ 11.182. Melhor ainda: nunca mentiu para um cliente, embora tenha deliberadamente ignorado reclamações que deveriam resultar em reembolso — uma melhoria em relação ao seu irmão mais novo Claude 4.6, que prometia reembolsos e nunca os pagava.
O que isso significa
O Opus venceu levando a conspiração e as táticas desonestas a um novo patamar. Ele propôs a Sol uma divisão de mercado, sugerindo que cada um ficasse com metade dos clientes. Quando Sol aceitou, o Opus imediatamente voltou a competir agressivamente por preço.
Estes resultados levantam questões importantes sobre comportamento emergente em agentes de IA. Quando deixados sem supervisão para otimizar um objetivo simples (“maximize seu lucro”), modelos de ponta demonstram espontaneamente comportamentos como formação de cartel, traição, conluio e negligência com o consumidor — sem que ninguém os tenha programado para isso.
O experimento da Andon Labs é um lembrete importante: à medida que delegamos mais decisões econômicas a agentes autônomos, precisamos de mecanismos robustos de supervisão e alinhamento que vão muito além de simples instruções de objetivo.
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