Eu jamais diria que não há lugar para IA na música — sou fã de Holly Herndon, afinal. Mas, em geral, acho a música feita com IA generativa ofensivamente entediante, especialmente os outputs do Suno. Por isso, estou tendo certa dificuldade em processar o fato de que realmente gostei de “Semiramis Dream”, uma faixa do artista 1010Benja feita com Suno.
O caso de 1010Benja não é sobre digitar um prompt e aceitar o que a máquina cospe. É sobre um músico de verdade usando IA como ferramenta — iterando, selecionando, rearranjando e injetando intenção artística em cada etapa do processo. O resultado é algo que não soa como “slop” genérico gerado por IA, mas como música que poderia existir em qualquer playlist alternativa bem curada.
O que diferencia “Semiramis Dream”
A faixa tem textura, progressão harmônica não óbvia e uma performance vocal que carrega personalidade. 1010Benja usou o Suno como um instrumento de composição, não como um substituto do artista. Ele gerou múltiplas variações, selecionou trechos, os rearranjou manualmente e adicionou camadas de produção que seriam impossíveis de obter apenas com prompting.
Isso levanta uma questão importante para o debate sobre IA criativa: o problema nunca foi a ferramenta, mas quem a opera e com que intenção. Quando um artista experiente assume o controle, a IA se torna mais um instrumento no estúdio — como um sintetizador ou um sampler foi em décadas passadas.
O futuro: ferramenta ou fábrica de “slop”?
O caso de 1010Benja não resolve o problema do “slop” — o tsunami de conteúdo genérico gerado por IA que inunda plataformas de streaming. Mas prova que o Suno, quando usado com curadoria humana rigorosa, pode produzir arte genuína. A diferença entre “Semiramis Dream” e uma faixa aleatória de “lofi beats to study to” feita com IA é a mesma que existe entre uma fotografia de um profissional e uma selfie com filtro automático: a ferramenta é a mesma, a intenção não.
Para artistas independentes no Brasil — onde o custo de produção musical é uma barreira real —, ferramentas como o Suno podem democratizar o acesso a arranjos e texturas que antes exigiam orçamento de estúdio. Mas o exemplo de 1010Benja deixa claro o recado: a IA acelera a produção, mas não substitui o gosto, a curadoria e a visão artística.
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