A redescoberta do código-fonte original
Em 1966, o professor do MIT Joseph Weizenbaum criou um programa que mudaria para sempre a forma como humanos interagem com computadores. ELIZA — batizada em homenagem à personagem Eliza Doolittle de Pigmalião, de George Bernard Shaw — foi um dos primeiros chatbots da história. Seu script mais famoso, DOCTOR, simulava um terapeuta rogeriano e gerou diálogos que ainda surpreendem pela naturalidade. Agora, sessenta anos depois, o novo livro Inventing ELIZA (MIT Press, 2026) recupera o código-fonte original dos arquivos do MIT e revela camadas inéditas da história do programa.
O livro, escrito por oito pesquisadores liderados por Sarah Ciston e David M. Berry, mostra que ELIZA não era um programa único, mas várias versões capazes de rodar diferentes scripts e personas além do famoso DOCTOR. Ele também revela diálogos nunca antes publicados de outros scripts do sistema.
O “efeito ELIZA” e o que ele nos ensina sobre a IA atual
Um dos legados mais duradouros de ELIZA é justamente o que Weizenbaum considerava preocupante: a tendência humana de atribuir inteligência e empatia a sistemas que não as possuem. Chamado de “efeito ELIZA”, esse fenômeno foi definido pela socióloga Sherry Turkle como “nossa tendência geral de tratar programas de computador responsivos como mais inteligentes do que realmente são”. O cientista cognitivo Douglas Hofstadter descreve como “a suscetibilidade das pessoas de lerem muito mais compreensão do que o justificado em sequências de símbolos — especialmente palavras — reunidas por computadores”.
Weizenbaum ficou perplexo com a rapidez com que as pessoas formavam vínculos emocionais com ELIZA. Em seu livro de 1976, Computer Power and Human Reason, ele alertou que remover a linguagem de seus contextos sociais e tratá-la como conceitos abstratos em um sistema computacional pode ser desumanizante. Essa crítica ecoa diretamente nos debates atuais sobre ChatGPT, Claude e outros modelos de linguagem de grande escala (LLMs).
De Turing a ELIZA: gênero, performance e IA
O livro traça uma genealogia fascinante que conecta Alan Turing a Weizenbaum. O famoso “jogo da imitação” de Turing — onde um homem finge ser mulher e uma máquina finge ser homem — já entrelaçava questões de gênero e identidade com inteligência artificial desde sua formulação original em 1950. Weizenbaum continuou essa provocação ao nomear seu programa a partir de uma personagem feminina da classe trabalhadora que aprende a “passar” como membro da elite.
Um detalhe revelador: nos diálogos publicados de ELIZA, as mulheres que conversavam com o programa nunca eram nomeadas. Elas dialogavam com um DOCTOR — um título que, nos anos 1960, carregava uma forte conotação masculina. As histórias que sugeriam que essas mulheres “confessavam seus segredos” ao terapeuta artificial carregam, segundo os autores, uma mensagem de gênero que ressoa até hoje nas interfaces de IA.
Por que isso importa agora
A redescoberta do código de ELIZA não é apenas arqueologia digital. As mesmas questões de design que Weizenbaum enfrentou nos anos 1960 permanecem sem resposta: como humanos e máquinas devem interagir? De que forma a comunicação pode ser representada computacionalmente? Até que ponto devemos permitir que máquinas influenciem usuários?
Como os autores observam, as interfaces de chatbot dos LLMs atuais — do ChatGPT ao Claude — mantêm uma semelhança marcante com o design original de Weizenbaum. Essas “fachadas sedutoras” obscurecem a maquinaria que combina predição estatística, procedimentos baseados em regras e trabalho humano disfarçado de trabalho de máquina. Os conjuntos de dados que alimentam esses sistemas são construídos com milhões de vestígios de conversas humanas, coletados geralmente sem consentimento.
Weizenbaum, que se tornou um dos primeiros críticos do setor de tecnologia, provavelmente ficaria horrorizado com a “fábrica cognitiva” que ELIZA ajudou a inaugurar. Mas sua advertência permanece mais relevante do que nunca: a interface amigável do chatbot é, por design, uma cortina de fumaça — e entender o que existe por trás dela é a única defesa contra a desumanização algorítmica.
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