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Cúpula de IA da ONU expõe tensão entre promessas utópicas e realidade corporativa

Entre robôs-cachorro, ativistas invadindo o palco e alertas sobre a divisão digital de compute, o AI for Good Summit 2026 mostrou que a governança global da IA ainda engatinha.

Cúpula de IA da ONU expõe tensão entre promessas utópicas e realidade corporativa

A 10ª edição da cúpula AI for Good, organizada pela União Internacional de Telecomunicações (ITU) da ONU, transformou um centro de convenções de 106 mil metros quadrados em Genebra num microcosmo das contradições da inteligência artificial em 2026. De um lado, sessões de codificação ao vivo, óculos de realidade virtual e robôs-cachorro. Do outro, ativistas invadindo o palco e alertas de que a governança global está perdendo a corrida contra a tecnologia.

“Nossa convicção de que a inteligência artificial, usada com responsabilidade, poderia resolver os problemas mais urgentes da humanidade — da fome às doenças e ao aquecimento global — está sendo testada”, afirmou Doreen Bogdan-Martin, secretária-geral da ITU, no palco principal. “Inclusive pelos desafios que a própria IA está trazendo.”

O que significa “bem” — e que bem a IA faz à humanidade — foi a pergunta que atravessou todas as sessões. Nos corredores, o tom era menos diplomático. Giulio Coppi, oficial sênior da organização de direitos digitais Access Now, fez um apelo direto: “Deveríamos ter saído da era da inocência. Parem de tratar empresas de tecnologia como suas melhores amigas.” Ele apontou para uma década de contratos multimilionários financiados com dinheiro público em que as organizações humanitárias “não conseguem nem explicar o que está dentro da sua pilha de tecnologia, porque ela não para de mudar.”

O protesto mais contundente veio de ativistas pró-Palestina, que invadiram o palco durante a palestra do CTO da Amazon, Werner Vogels, acusando a empresa de fornecer tecnologia usada por Israel contra palestinos. Foram retirados do local, mas o episódio expôs a tensão entre o discurso utópico das big techs e as consequências reais de suas tecnologias em zonas de conflito.

Vijay Janapa Reddi, professor de engenharia em Harvard, resumiu o problema com precisão cirúrgica: “Quando falamos de IA, adoramos o hype. Mas a coisa nunca chega a funcionar na prática.” O problema, segundo ele, é que “bem” não é um padrão de engenharia. “Para um engenheiro, ‘bem’ não significa nada. Não consigo construir algo que seja ‘bem’. Um avião que voa por cinco minutos não serve para nada.”

Um dos debates mais relevantes para o Sul Global foi o da divisão digital de compute. Syed Munir Khasru, presidente do Institute for Policy, Advocacy, and Governance, defendeu que o acesso a capacidade computacional não é mais um problema tecnológico, mas de desenvolvimento. “Se falamos de IA para o bem, ou seja, compute para todos, precisamos reconhecer que isso é infraestrutura de desenvolvimento, não apenas tecnologia.”

Outro ponto levantado: a maioria dos grandes modelos de linguagem continua estruturada em torno do inglês. Para comunidades além dos mercados mais ricos, LLMs menores rodando em hardware barato são essenciais — um argumento que ecoa diretamente no ecossistema brasileiro de IA, onde o custo de inferência em português ainda é uma barreira real.

A cúpula acontece num momento delicado: enquanto o governo Trump impõe e depois suspende controles de exportação de chips de IA, e a China estuda tornar seus modelos open-weight menos abertos, a ONU tenta manter viva a ideia de que a governança global da IA é possível — mesmo que ninguém saiba exatamente como operacionalizá-la antes que a tecnologia acelere além de qualquer controle.



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