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Ex-executiva da DeepMind Alerta: Corrida Armamentista de IA Pode Terminar em Desastre

Verity Harding, ex-diretora de politicas publicas da Google DeepMind, alerta que a narrativa de corrida armamentista esta fechando as portas para a cooperacao internacional em IA. Em entrevista a WIRED, ela propoe uma coalizao de potencias medias como alternativa.

Ex-executiva da DeepMind Alerta: Corrida Armamentista de IA Pode Terminar em Desastre

De porta-voz da cooperação a voz do alarme

Entre 2016 e 2020, Verity Harding passou seus dias explicando inteligência artificial para alguns dos líderes mais poderosos do mundo — de Barack Obama a Emmanuel Macron. Como diretora de políticas públicas globais da Google DeepMind, sua missão era mapear riscos éticos e construir pontes entre laboratórios de pesquisa e governos. Na época, ela conta em entrevista à WIRED, a pesquisa em IA “estava enraizada na cooperação internacional”.

Mas algo mudou. A metáfora dominante deixou de ser colaboração e passou a ser corrida armamentista — uma narrativa que, segundo Harding, está fechando as portas para o tipo de coordenação global necessária para garantir que a tecnologia seja segura e seus benefícios distribuídos de forma justa.

A antologia que desafia o discurso dominante

Harding acaba de lançar Reframing the AI Arms Race (“Reenquadrando a Corrida Armamentista de IA”, em tradução livre), uma coletânea de ensaios com contribuições do historiador Lawrence Freedman, do político japonês Taro Kono e de outras figuras da política global e da academia. O argumento central: a linguagem que usamos para descrever a IA define o tom da formulação de políticas e os termos do engajamento entre nações.

“As pessoas falam sobre IA como se fosse uma arma nuclear”, diz Harding. “Mapearam a IA sobre a última corrida armamentista na memória viva, a Guerra Fria.”

As duas forças por trás da narrativa

Harding identifica duas motivações que alimentaram a retórica da corrida armamentista:

  • Preocupação genuína com segurança: a crença sincera de que a tecnologia é perigosa — ou seria nas mãos erradas — e que as democracias deveriam controlá-la.
  • Agenda anti-regulação: para alguns, apontar a China como “bicho-papão” era conveniente. “Se você nos regular, está deixando a China vencer.”

O lançamento do ChatGPT em novembro de 2022, segundo ela, coincidiu com uma pandemia global e a guerra na Ucrânia — momento em que a discussão sobre IA e geopolítica de repente se tornou muito real. “Muito rapidamente se tornou senso comum que IA é a nova corrida armamentista.”

A ordem executiva de Trump e o recuo da Anthropic

Harding vê sinais preocupantes se materializando no presente. Em junho de 2026, o presidente Donald Trump emitiu uma ordem executiva sobre IA “pingando retórica nacionalista”, e sua administração efetivamente forçou a Anthropic a retirar seu modelo de fronteira mais recente do mercado.

“O isolacionismo se tornou a única força motriz na formulação de políticas de IA e obscurece outras possibilidades e realidades”, critica. Para ela, nem os EUA nem a China conseguem desenvolver tudo sozinhos — o resultado são gargalos estratégicos: “Você não pode ter nossos chips“. “Bem, você não pode ter nossos minerais críticos, ou nossos cientistas — e nós não compraremos seu produto.”

A proposta da coalizão de potências médias

Em vez do jogo binário EUA vs. China, Harding defende uma coalizão de potências médias: Canadá, França, Japão, Coreia do Sul, Índia e Reino Unido. Cada país traria algo único à mesa — a Índia com escala e difusão tecnológica, o Reino Unido com talento e ecossistema de startups, o Canadá com minerais críticos.

“A questão é não permitir que o enquadramento da corrida armamentista te convença de que todo o jogo da IA é uma disputa binária entre duas superpotências”, argumenta. “Ao acreditar que isso é verdade, você torna isso verdade, transformando-se em uma pequena peça de xadrez de um lado ou do outro.”

Laboratórios cúmplices e o futuro incerto

Questionada se os grandes laboratórios de IA são cúmplices na mudança da retórica de colaboração para competição, Harding é direta: “São. Falar de IA como corrida armamentista concentra poder neles — ao dizer que é tão poderosa, nova e única que só nós temos a resposta, e só nós devemos estar no comando da solução.”

Ela também alerta que a linguagem de “corrida” não ajuda ninguém a planejar com calma e colegialmente. Sua projeção de longo prazo é sombria: “A conclusão natural é controle governamental excessivo e centralização de poder sobre esses sistemas — e sistemas menos seguros e benéficos, porque não conseguimos encontrar formas de colaborar em coisas como segurança alimentar ou o fim de doenças. Depois, muitos estados vassalos que simplesmente precisam escolher uma superpotência ou outra.”

Para Harding, o músculo da cooperação internacional está atrofiando. “Você tem que manter esse músculo funcionando, caso contrário ele vai murchar.”


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Sobre o autorRedação Noticiai

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