A promessa antiga do assistente que resolve tarefas
Há anos ouvimos que a inteligência artificial vai assumir as tarefas tediosas que adiamos indefinidamente — ligar para cancelar um plano, cotar um serviço, comprar uma peça de reposição. A Meta afirma que esse futuro já chegou com o Muse, seu agente de IA para o grande público. O jornalista David Pierce, do The Verge, colocou o agente à prova fazendo exatamente o que ele promete: cuidar das pendências chatas acumuladas há semanas, meses ou até anos. E o resultado foi melhor do que ele esperava — sobretudo quando havia uma transação de cartão de crédito envolvida.
Uma manhã de tarefas em paralelo
O teste começou com tarefas pequenas e não críticas, o tipo de “pedra no sapato” que todo mundo adia. Marley — um dos nomes sugeridos para o avatar do Muse, com visual de boneco de neve misturado com filhote de cachorro — recebeu uma lista de pedidos em sequência enquanto o jornalista o observava abrir janelas de navegador virtuais para perseguir cada solicitação.
No caso do paisagista, o agente pediu acesso ao Gmail, confirmou que o prazo do orçamento tinha estourado e redigiu um e-mail de cobrança — que o repórter pediu para encurtar. Para a peça da máquina de café, o Muse encontrou o componente, adicionou ao carrinho e deixou a finalização do pedido por conta do humano. Para a retirada de um galho de árvore caído, ele vasculhou serviços de remoção, pediu endereço e foto do galho e montou solicitações de orçamento em formulários online — a empresa retornou por mensagem logo depois.
O ponto sensível: quando o agente paga por você
O momento mais revelador veio nas compras. O Muse tentou acessar a Amazon e foi bloqueado com uma mensagem sobre agentes de IA violarem os termos de serviço — um sinal de que o varejo ainda não decidiu como conviver com agentes autônomos. Ele então encontrou os itens desejados nos sites da OXO e do Walmart. Após o repórter conectar o cartão via Stripe uma única vez, virou “perigosamente fácil” dizer “pode ir” e aprovar o que estava no carrinho.
O agente ainda fez pesquisa de preço, calculou se o dessalinizante em pó valia mais a pena que o líquido (valia, “de longe”) e distribuiu as compras ao longo do inverno para caber no orçamento. O total da cozinha de camping e da fogueira a gás chegou a US$ 500. “É chocantemente fácil gastar dinheiro quando um bichinho fofo está correndo pela internet com seu cartão de crédito”, escreveu Pierce.
Limites e o dilema do tempo liberado
O Muse não resolveu tudo: para rebaixar o plano do sistema de segurança, era preciso uma ligação telefônica — e fazer chamadas ainda está “nos planos” do agente. Esse é o próximo fronteira óbvio, e também um futuro estranho de imaginar: robôs conversando com robôs antes de qualquer humano entrar na linha.
O teste também levantou o custo de confiança. Em 40 minutos, o jornalista entregou à Meta nome completo, endereço, número de cartão, foto do quintal e credenciais de login do sistema de segurança. E a pergunta de fundo ficou no ar: se o agente libera tempo, o que faremos com ele? Naquela manhã, o tempo “economizado” acabou sendo gasto conversando com o próprio Marley sobre o projeto do quintal e viagens de acampamento que talvez nunca aconteçam.
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