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Matemáticos odeiam a IA, mas não conseguem largá-la

Acusações de plágio, cartas abertas e uma pergunta difícil: dá para fazer matemática séria sem IA em 2026?

Matemáticos odeiam a IA, mas não conseguem largá-la

O dilema dos matemáticos na era da IA

Uma semana e meia depois de acusar a OpenAI de copiar sua abordagem na resolução do problema de Navier-Stokes, o matemático Tristan Buckmaster, da Universidade de Nova York, continua usando o Codex — o agente de programação da própria empresa — para organizar seus artigos. Ele não está sozinho: matemáticos que criticam a IA publicamente seguem dependendo dela no dia a dia. O sentimento, resumido pelo próprio Buckmaster, é de impasse: “Com a IA sendo tão útil, é difícil impedir completamente a si mesmo de usá-la.”

O que aconteceu com o Navier-Stokes

Buckmaster usava Codex e o Claude, da Anthropic, ao lado do pesquisador Levent Alpöge para trabalhar no problema de existência e suavidade de Navier-Stokes. A OpenAI, segundo ele, mobilizou dezenas de milhares de agentes para chegar à solução — mas só depois de saber que a equação estava perto de ser resolvida. Quando a empresa anunciou o resultado sem creditar o trabalho humano subjacente, ele veio a público.

Após uma investigação, a OpenAI alterou o anúncio para afirmar que os prompts de Buckmaster nos dois meses anteriores “não poderiam ter influenciado o sistema de forma alguma”. Para o matemático, provar que a IA estava empurrando as fronteiras da disciplina era “mais importante do que o resultado” — mas divulgar soluções sem creditar o trabalho por trás delas é, em suas palavras, “infantil”.

Um problema de atribuição — e de identidade

O caso não é isolado. O matemático alemão Andreas Thom, cujas técnicas em teoria geométrica de grupos foram usadas pelo modelo Astra para provar um problema que ele perseguia há duas décadas, resume a mudança: “A IA realmente mata toda essa ideia de rastrear quem contribuiu com o quê. Isso provavelmente acabou.”

O impacto vai além do crédito. “Se eu quero fazer uma contribuição para a matemática, como faço isso como humano hoje, quando empresas de trilhões de dólares estão no jogo?”, pergunta Alex Townsend, matemático da Cornell. Desde agosto, colegas dele perguntam o que precisam saber sobre a tecnologia e como assinar modelos mais poderosos.

A reação organizada

Vinte e cinco medalhistas Fields assinaram uma carta aberta afirmando que empresas de IA e matemáticos estão “severamente desalinhados”. Mais de 4 mil pessoas já assinaram a Declaração de Leiden, com recomendações para matemáticos, financiadores e políticos. E mais de 2 mil pessoas ligadas à Caltech pediram a suspensão de um hackathon de matemática com IA patrocinado por Anthropic e OpenAI.

Mesmo assim, Thom reconhece: “Não acho que isso seja sustentável por causa do ganho de eficiência.” Matemáticos no início de carreira, diz ele, correm o risco de ficar “isolados” se não usarem IA para acelerar o trabalho. Buckmaster defende uma trégua — e regras claras sobre como divulgar resultados e referências — enquanto os laboratórios de IA e a comunidade estabelecem um novo pacto de convivência.


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