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Ficção sob medida: por que leitores estão usando chatbots para escrever histórias

Análise de 500 mil prompts revela que um terço das interações com chatbots gera ficção — e os leitores não se importam que seja IA.

Ficção sob medida: por que leitores estão usando chatbots para escrever histórias

Enquanto o mercado editorial se escandaliza com autores usando inteligência artificial para escrever, uma parcela silenciosa e dedicada de leitores está fazendo exatamente o oposto: usando chatbots para criar ficção sob medida para si mesmos. É o que revela uma análise da Universidade de Washington sobre mais de 500 mil prompts enviados ao ChatGPT.

O que o estudo descobriu

Pesquisadores da Universidade de Washington analisaram o conjunto público de dados WildChat, com mais de 500 mil prompts, e concluíram que mais de um terço das interações com chatbots envolvem alguma forma de geração de ficção — prosa, poesia, fan fiction, erotismo ou role-play.

A maior parte desses prompts vem de um pequeno grupo de “power users” que geram e ajustam histórias de forma obsessiva. Em um caso, um único usuário pediu ao ChatGPT para gerar versões da mesma narrativa de fan fiction milhares de vezes ao longo de vários meses. Mesmo controlando esse uso intenso, os pesquisadores estimam que 7% dos usuários de chatbot se dedicam à geração de ficção.

O próprio estudo reconhece limitações. Como os prompts são anônimos, não há dados demográficos. E os participantes precisaram concordar em tornar seus prompts públicos, o que pode não refletir a população geral. Um estudo de 2025 da OpenAI com o National Bureau of Economic Research sugere uma proporção bem menor — 1,4% — embora esse número não inclua role-play.

Por que as pessoas fazem isso

Para os usuários, o apelo está justamente naquilo que distingue a IA de um escritor humano. “O que me fascina é a imprevisibilidade”, conta à WIRED a brasileira Petra Ferraz de Novaes, engenheira de software de 36 anos que usa o programa SillyTavern para rodar modelos open source e construir histórias interativas. “As pessoas dizem que a IA alucina muito. Mas, nesse caso, é provavelmente o que você quer.”

Melanie Walsh, professora assistente e coautora do estudo, resume: “Elas sabem que as histórias são produzidas por um modelo de IA, e não se importam. Na verdade, isso parece ser uma grande parte da atração.” Os pesquisadores apontam três qualidades que modelos de IA têm e escritores humanos não: são livres de julgamento, produzem histórias instantaneamente e são quase inesgotáveis.

Para os fãs de conteúdo erótico, a IA cria a oportunidade de se inserir na ação e conversar com os personagens. “É um livro de escolha-sua-aventura digital, mas com deslizes infinitos”, diz Razrien, um usuário de 40 anos que criou personagens de fantasia como uma “grande esposa rata zangada”. Ele até compara modelos por nicho: o Gemma 4, do Google, é seu favorito atual para certas fantasias.

O que isso diz sobre o futuro da leitura

Os escândalos recentes no mercado editorial — uma editora cancelou um contrato de US$ 2 milhões, outra retirou um romance das prateleiras, leitores alegaram que um conto premiado foi gerado por IA — carregam a ideia implícita de que ninguém quer ler histórias feitas por máquina.

Mas a pesquisa sugere que essa comoção desviou a atenção do comportamento real dos leitores. Há um segmento comprometido de pessoas gerando ficção personalizada e privada, sem intermediários. Neel Gupta, doutorando e coautor do estudo, pondera que a ficção gerada pode desafiar “noções mais antigas e idealistas sobre o que é literatura — de que há alguma comunicação entre escritor e leitor, e algo realmente valioso nisso”.

Para o leitor brasileiro, o fenômeno tem um eco familiar: a tradição de literatura interativa e role-play já é forte no país, dos RPGs de mesa às comunidades de fan fiction. A IA apenas remove a barreira de entrada — não é preciso publicar, nem esperar um capítulo novo, nem depender de uma editora.


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Sobre o autorRedação Noticiai

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