O regulador de energia do Reino Unido, a Ofgem, apresentou em julho uma proposta para expulsar os chamados “data centers fantasmas” da fila de conexão à rede elétrica do país. A medida exige que incorporadoras depositem um valor alto e não reembolsável — que pode chegar a centenas de milhões de dólares para os maiores projetos — além de comprovar clientes e financiamento antes de entrar na fila.
O problema: a Ofgem enfrenta um dilema de “Cachinhos Dourados”. As reformas precisam ser duras o bastante para afastar especuladores, mas não a ponto de empurrar projetos legítimos para outros países e minar a ambição britânica de suprir a demanda voraz por computação para modelos avançados de IA.
Uma fila que explodiu em meses
A fila de conexão começou a inchar no fim de 2024, quando o governo designou os data centers como “infraestrutura nacional crítica”. Entre novembro de 2024 e junho de 2025, a demanda total de energia dos projetos na fila saltou de 41 gigawatts para 125 gigawatts, segundo a Ofgem. Só os novos data centers respondem por 73 gigawatts — o equivalente a uma vez e meia o pico de demanda de todo o Reino Unido no ano passado.
O governo acredita que boa parte dessa demanda é miragem. “É absolutamente insano”, diz Taco Engelaar, diretor da Neara, empresa de otimização de rede. “Ninguém entende de fato qual será a demanda real da rede por causa desses projetos fantasmas.”
Um problema de incentivos
A fila congestionada é, em grande parte, produto de um desenho perverso de incentivos. Como os desenvolvedores enfrentam anos de espera por acesso à rede — e custava apenas alguns milhares de dólares entrar na fila — vale a pena solicitar energia mesmo sem um plano sólido. É uma aposta sem desvantagem, que permite ao desenvolvedor se proteger para um futuro em que a demanda por computação continue altíssima.
O efeito colateral é grave: como os operadores de rede precisam considerar o impacto combinado de todas as propostas antes de liberar conexões individuais, os projetos fantasmas agravam atrasos para quem tem planos viáveis. “Eles precisam tratar cada projeto como sério ao estudar se o sistema suporta”, explica Olivier Darmouni, professor da HEC Paris que pesquisa o impacto da IA em redes elétricas. “Os projetos especulativos são especialmente danosos porque tornam esses estudos mais complexos, caros e demorados.”
A fila também atrai intermediários que aplicam por energia apenas para revender terrenos com acesso à rede embutido, a um preço maior. “É como cambismo de ingressos de show”, compara Darmouni. “A congestão se retroalimenta e sai do controle.”
O risco de exagerar na dose
Desde 2024, o Reino Unido já exige que os desenvolvedores comprovem posse de terrenos, pedido de planejamento e outros marcos que indicam real intenção de concluir os projetos. A nova proposta segue a mesma lógica — e, no básico, deve funcionar para desidratar os pedidos especulativos.
Mas há preocupação com efeitos colaterais. Taxas altas demais podem afastar incorporadoras que já preferem os EUA e regiões da Europa com energia renovável abundante. “É um equilíbrio muito difícil”, diz Daniel Newton, sócio do escritório Slaughter and May especializado em infraestrutura digital. “Se você não define a taxa alta o suficiente, não detém a especulação. Se define alta demais, mata projetos viáveis.”
A reforma pode ainda expulsar todos, exceto os maiores players, do mercado britânico — sufocando uma nova geração de operadores menores especializados em IA, como a Nscale, que já prometeram bilhões em investimento no país.
Para defensores, no entanto, limpar a fila de projetos fantasmas é condição para o Reino Unido capturar uma fatia das centenas de bilhões de dólares que estão fluindo para o setor. “Trata-se de moldar os próximos cinco anos para construir os data centers no lugar certo, no tamanho certo e com a fonte de energia certa”, resume Darmouni. “Não é um acelerador que você pisa e o carro arranca imediatamente.”
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