Inteligência artificial, sem ruído.
Regulamentação e Ética3 min

Condado inglês recusa Palantir e mantém plataforma própria de dados de saúde

Greater Manchester resiste à plataforma de dados do NHS construída pela Palantir e reacende o debate sobre confiança pública e dependência de tecnologia americana.

Uma plataforma nacional de dados, e uma resistência local

Em 2023, o Reino Unido contratou a Palantir para desenvolver uma “federated data platform” (FDP) capaz de organizar a trama de dados de saúde do NHS, o sistema público britânico. Segundo a empresa e o próprio NHS, a plataforma já reduz filas, encurta internações e melhora o uso das salas cirúrgicas.

Mas, à medida que a tecnologia da Palantir passou a ser usada em teatros de guerra e no aparato de imigração dos Estados Unidos, o contrato virou ponto de atrito no Reino Unido: protestos, petições, inquéritos parlamentares e uma rebelião relatada entre trabalhadores do NHS. Outras nações europeias, cada vez mais em descompasso com Washington, também reavaliam sua relação com a empresa para reduzir a dependência de tecnologia americana.

A exceção de Greater Manchester

No centro dessa disputa está Greater Manchester, na Inglaterra. O conselho regional de saúde — que cobre cerca de 3 milhões de pessoas — recusou repetidamente adotar o FDP da Palantir e mantém sua própria plataforma, a ADSP, desenvolvida internamente ao longo de quase uma década.

O argumento central é de confiança, não apenas de tecnologia. “Mesmo uma plataforma tecnicamente forte vai ter dificuldade de gerar valor se médicos, controladores de dados, pacientes ou o público não confiarem nela”, diz Matt Hennessey, diretor de dados e análise do NHS Greater Manchester, à WIRED. “Se adotássemos integralmente o FDP, seria um passo para trás.”

Em reunião de maio de 2025, o conselho concluiu que sua capacidade local “supera qualquer coisa que o FDP oferece hoje”, com funcionalidades “dois a três anos à frente”. A ADSP recebe dados de atenção primária que não estão disponíveis na plataforma da Palantir e, por ter sido construída em casa, pode ser reconfigurada com mais facilidade.

O embate de números e o futuro do contrato

Os números nacionais contam outra história. Dos cerca de 200 trusts (organizações que administram hospitais e cuidados locais), 139 já estão “ativos” com a tecnologia da Palantir, e 35 das 36 juntas de cuidado integrado (ICBs) usam o sistema. A Palantir afirma que a plataforma é amplamente confiável e que faltam evidências independentes de que a ADSP tenha melhorado o atendimento ou reduzido custos.

A resistência de Greater Manchester alimenta um debate maior: o governo britânico deve encerrar o contrato com a Palantir já em fevereiro do ano que vem, em vez de deixá-lo correr até 2031.

O caso ilustra uma tensão que tende a crescer na adoção de IA no setor público: a diferença entre capacidade técnica e legitimidade pública. Mesmo um sistema funcional pode falhar na prática se quem o opera não confia em quem o construiu — um recado relevante para qualquer governo que esteja escolhendo fornecedores de IA para serviços essenciais.


Descubra mais sobre noticiAI

Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.

R
Sobre o autorRedação Noticiai

Equipe editorial dedicada a explicar inteligência artificial com clareza, independência e contexto.