Do agente único a um time de bots nomeados
A Nous Research — a empresa por trás do Hermes Agent, o agente open source sob licença MIT — acaba de lançar um recurso chamado Bot Mode. Em vez de uma única lista de sessões de um agente, o usuário passa a ter um time de bots nomeados, cada um funcionando como um perfil real do Hermes, com seu próprio histórico de conversa, memória, habilidades e modelo fixado.
A novidade começou como um plugin beta público de um dia, criado pelo cofundador Teknium. Agora ela chega empacotada e ativada por padrão no Hermes Desktop, na versão v0.20.3 do Hermes Agent. Tanto o agente quanto o plugin seguem a licença MIT — ou seja, dá para usar no desktop hoje, sem custo de licença.
Como funciona por baixo dos panos
O detalhe técnico mais interessante é que um bot é, na prática, um perfil do Hermes. Cada um vive em ~/.hermes/profiles/<nome>/ com configuração, memória, skills, credenciais e histórico isolados. O plugin é essencialmente uma interface sobre uma primitiva que o Hermes já tinha — isso mantém a superfície do código pequena e previsível.
A criação e a edição dos bots passam por chamadas RPC do gateway de perfis (listar, criar, descrever, configurar). A geração de avatares usa o RPC image.generate em gateways locais e remotos. As rotinas de cada bot são cron jobs comuns do Hermes, com o prefixo [bot:<nome>], e continuam aparecendo no hermes cron list.
A comunicação entre bots segue a mesma lógica: cada bot tem uma conversa persistente chamada Agent Inbox. As mensagens entre bots são handoffs reais de linha de comando — algo como hermes -p <bot> chat -c "Agent Inbox" -q "..." — com atribuição de autoria, e o SOUL.md de cada bot ensina o protocolo de resposta. Digitar @pesquisador dê uma olhada nisso faz o bot ativo repassar o trabalho e reportar o resultado.
O que dá para configurar em cada bot
O diálogo “New Agent” pede nome, título e descrição. Uma seção avançada abre a configuração completa do perfil: clonar um perfil existente, fixar um provedor e um modelo, escrever um SOUL.md customizado ou pular skills. Clicar com o botão direito em um bot abre o “Edit Profile”, que edita o perfil ao vivo — incluindo a habilitação de skills e toolsets por bot, o modelo fixado e o SOUL.md.
Os avatares são rostos geométricos em sete formatos e dez cores, mas dá para fazer upload de uma imagem, gerar um retrato ou anexar um “pixel pet”. Um detalhe curioso: os olhos “varrem” a tela enquanto o bot trabalha.
Do beta de um dia ao recurso nativo
A evolução foi rápida. Teknium rodou um beta público de um dia pelo plugin avulso, coletou relatos de bugs e se comprometeu a incorporar o recurso no app desktop. Isso já aconteceu: pelo PR #87886 do hermes-agent, o Bot Mode está empacotado e ativo por padrão, e o repositório avulso foi arquivado. O desenvolvimento segue dentro da árvore principal, em apps/desktop/src/plugins/hermes-bots/.
A versão nativa trouxe capacidades que o beta não tinha: grupos organizam o time em seções rotuladas que sincronizam entre máquinas; chats em grupo abrem uma sala compartilhada para dois a seis bots, com até três rodadas seriais de respostas (bots mencionados respondem, todos respondem quando ninguém é mencionado, e cada um responde brevemente ou passa). Um roster multi-fonte puxa bots de todas as conexões em Settings → Connections.
Para quem serve (e para quem não serve)
Os casos de uso citados pela publicação são diretos: um bot de pesquisa fixado em um modelo de raciocínio ao lado de um bot de escrita em um modelo mais barato; digests agendados e relatórios noturnos; agentes por projeto que nunca vazam contexto entre si; e cadeias de handoff em que um “scout”, um “revisor” e um “publicador” passam o trabalho adiante por @menção.
Construtores independentes, startups e times de engenharia pequenos e médios podem adotar imediatamente. Já empresas reguladas devem tratar o Bot Mode como ferramenta de estação de trabalho, não como infraestrutura gerenciada: não há console de administração, SSO, trilha de auditoria central nem camada de políticas — quem precisa de controles terá que implementá-los por conta própria.
Por que isso importa agora
O Bot Mode chega num momento em que os agentes de IA estão deixando de ser assistentes únicos e virando equipes especializadas que se coordenam. A abordagem da Nous Research é notável pela simplicidade: em vez de criar uma nova camada de armazenamento ou um framework de orquestração pesado, ela reaproveita o conceito de perfil que o Hermes já tinha, expondo-o como uma interface de “equipe”. É um exemplo concreto de como o orçamento de agentes múltiplos — pesquisar, escrever, revisar e publicar — pode rodar localmente, em desktop, sem depender de serviços na nuvem.
Para o público brasileiro que acompanha IA, a leitura é clara: a experimentação com multiagentes não exige mais infraestrutura complexa nem licenças caras. Com ferramentas de código aberto como o Hermes Agent, dá para montar um pequeno time de bots em um notebook e testar fluxos de handoff e memória isolada por perfil — um ótimo ponto de partida para quem quer entender na prática como os agentes do futuro vão se coordenar.
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