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O que os defensores da Flock estão deixando de fora no debate sobre vigilância por IA

Análise do MIT Technology Review questiona as decisões de design da Flock sobre coleta, busca e retenção de dados na rede de 120 mil leitores de placas.

O que os defensores da Flock estão deixando de fora no debate sobre vigilância por IA

O anúncio e o que ele tenta corrigir

A Flock, gigante de tecnologia policial conhecida por uma rede de cerca de 120 mil leitores automáticos de placas (LPRs, na sigla em inglês) espalhados pelos Estados Unidos, anunciou na quinta-feira passada (13 de agosto de 2026) mudanças em sua plataforma para impedir que policiais a usem para fins ilegais ou ilegítimos.

O contexto explica a pressa. O Washington Post identificou recentemente 50 casos em que policiais usaram indevidamente sistemas da Flock e de concorrentes, muitas vezes para perseguir e assediar mulheres. Em um caso no estado de Wisconsin, uma mulher alegou que o ex-namorado policial pesquisou o carro dela 179 vezes. Em outro, uma mulher era perseguida pelo próprio chefe de polícia, sem a quem recorrer.

Em resposta, a Flock adotou práticas como usar software para sinalizar buscas anormais e exigir que quem pesquisa digite um número de caso criminal. As mudanças, porém, vieram com brechas grandes: policiais podem digitar números de caso falsos, assim como já mentiram para contornar outras salvaguardas da Flock. A empresa confirmou ao MIT Technology Review que não verifica esses números.

A pergunta que os defensores não fazem

Em meio ao debate, surgiram argumentos de defesa da Flock: se essas câmeras ajudam a solucionar crimes, qual é o problema? Em um bom dia, elas ajudam a pegar um sequestrador; se não, estão apenas tirando fotos do meu carro que ninguém vai olhar.

O autor James O’Donnell argumenta que isso tudo pula uma pergunta mais importante: que tipo de sistema de combate ao crime a Flock escolheu construir? A rede funciona do jeito que funciona por causa de uma série de decisões sobre quais informações coletar, quem pode pesquisá-las, por quanto tempo mantê-las e quão amplamente compartilhá-las. Essas decisões definem os termos da barganha entre segurança e liberdades civis. Acreditar que a tecnologia deve ter um papel na solução de crimes não deveria significar aceitar cegamente os termos dessa barganha.

Havia outros desenhos possíveis

Considere a nova exigência de digitar um número de caso antes de uma busca. A intenção é garantir que a pesquisa tenha propósito legítimo, mas a Flock não valida esses números. Um sistema alternativo poderia exigir números que batam com os registros do departamento de polícia — uma integração mais intrusiva, talvez, mas uma salvaguarda muito mais forte e que deixaria uma trilha de auditoria mais útil.

Ou pense no uso mais citado pela Flock: encontrar pessoas sequestradas ou desaparecidas. Se os americanos quiserem que policiais acessem a rede apenas para esse fim, o sistema poderia ser desenhado exatamente assim — buscas vinculadas a um Amber Alert ativo ou emergência similar, acessando uma quantidade maior de dados de cidades vizinhas. Isso preservaria o valor da rede em emergências sem exigir vigilância em massa.

Há ainda a questão de quantos dados a Flock coleta e por quanto tempo. A rede opera nacionalmente: a polícia de uma cidade pode pesquisar dados coletados em outra, e as agências podem reter esses dados por meses ou anos. No entanto, a própria Flock diz que 90% das buscas acontecem em até uma semana do incidente — o que sugere outra barganha possível: reter e compartilhar dados apenas na amplitude e pelo tempo em que são realmente úteis. A empresa mudou recentemente a retenção recomendada para sete dias, mas na prática as agências podem guardar os dados por quanto tempo quiserem.

O modelo de negócio está em jogo

Estreitar o escopo da tecnologia ameaçaria o próprio argumento de venda da Flock para os departamentos de polícia. Leitores de placas existem desde os anos 1990, usados em pedágios e multas. O modelo de negócio da Flock — e sua avaliação recente de US$ 8 bilhões — depende de transformar suas câmeras em uma rede massiva que coleta dados ricos e oferece às polícias uma forma moderna de dar sentido não só aos seus próprios dados, mas aos de outras agências.

Chad Marlow, conselheiro sênior de políticas da ACLU, disse a O’Donnell que o contrato da Flock mais aceitável pelos seus padrões é “aquele que nunca é assinado”, e reforçou que a melhor forma de impor limites à vigilância não é com novas diretrizes da Flock, mas com novas leis. O CEO da Flock, Garrett Langley, por sua vez, disse que “provavelmente sempre terá uma visão diferente da ACLU”.

Por que isso importa agora

A mão da Flock pode ser forçada em breve. Cidades já cancelaram contratos com a empresa, algumas migraram para concorrentes e outras estão pausando enquanto moradores debatem como querem que a tecnologia seja usada. O desfecho provável é que as comunidades imponham suas próprias barganhas sobre como a tecnologia pode ser usada para combater o crime — e quanta vigilância as pessoas precisam aceitar em troca. Para o público brasileiro, onde câmeras com reconhecimento de placas e de faces avançam em cidades e rodovias, o debate americano serve de alerta antecipado sobre as decisões de desenho que definem a fronteira entre segurança pública e vigilância em massa.



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