O manifesto de Zuckerberg e por que o público desconfia da IA
Mark Zuckerberg publicou na segunda-feira um manifesto de 6.500 palavras sobre inteligência artificial pessoal — um texto que, segundo ele, descreve por que está pessoalmente empolgado com as formas como a IA vai transformar a sociedade. Mas, como argumenta Russell Brandom em sua análise para o TechCrunch, o documento acaba sendo um exemplo perfeito de por que tanta gente desconfia da tecnologia e de quem a está construindo.
O problema não está no entusiasmo em si — a IA tem um potencial transformador real. A questão é que o manifesto ignora sistematicamente os danos já causados por tecnologias anteriores lançadas com o mesmo otimismo genérico. Uma pesquisa recente mostrou que 64% dos americanos acreditam que as redes sociais foram prejudiciais à democracia, e no mesmo fim de semana a Meta foi multada em US$ 567 milhões por danos a crianças. A confiança do público nos executivos de tecnologia está no chão.
Generalidades que lembram a era das redes sociais
Grande parte do ensaio é dedicada a generalidades vagas sobre inteligência — muito parecidas com as que Zuckerberg e Jack Dorsey usavam para falar sobre liberdade de expressão na década passada. Um exemplo do texto:
“À medida que todos ganham ferramentas mais poderosas, cada pessoa se tornará mais capaz de moldar o futuro, não menos. Pessoas e instituições com interesses concorrentes naturalmente se equilibram mutuamente em direção a resultados positivos.”
O problema, aponta Brandom, é que isso é apresentado como uma conclusão filosófica profunda, quando na verdade é a descrição de um produto chamado “inteligência pessoal” que a Meta está lançando no mercado. Se você já desconfia dessa pessoa, vai suspeitar que ela está escrevendo tudo isso para se convencer de que nada de ruim pode acontecer.
Exemplos que mostram desconexão com a realidade
O manifesto fica particularmente frágil quando Zuckerberg apresenta exemplos concretos. Sobre educação, ele descreve um futuro em que “todos terão um tutor e coach personalizado com PhD em todas as matérias e paciência ilimitada”. Só que esse produto já existe: são os chatbots como ChatGPT, Claude e Gemini. E o principal uso deles na educação, até agora, tem sido para evitar aprender — fazer o dever de casa e escrever redações no lugar do aluno, sem que professores consigam detectar.
Sobre o sistema jurídico, Zuckerberg imagina que dar a todos um “advogado superinteligente” tornaria a justiça mais equilibrada. Mas também poderia desencadear uma onda de litigantes vexatórios entupindo o sistema com o equivalente jurídico de spam. O fato de Zuckerberg não se preocupar com esses cenários, argumenta o autor, torna tudo mais preocupante.
O que falta: reconhecer os riscos
Sam Altman e Dario Amodei, com todos os seus defeitos, fazem algo que Zuckerberg resiste em fazer: reconhecem os perigos da IA, enfatizam suas precauções e tentam convencer o público de que são dignos de confiança. Essa comunicação tem limites — especialmente quando as salvaguardas falham —, mas sem algum esforço de construção de confiança, a indústria pode não sobreviver aos seus próprios fracassos.
O manifesto de Zuckerberg é um lembrete valioso do abismo que ainda separa o Vale do Silício do resto da sociedade quando o assunto é IA. Não basta descrever o futuro que se quer construir — é preciso mostrar que se aprendeu com os erros do passado.
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